Iminente oferece noites em AL a pessoas sem-abrigo que vivem Escola Afonso Domingues

Seis pessoas em situação de sem-abrigo decidiram manter-se na Escola Afonso Domingues e vão ter dormida durante as quatro noites do festival em Alojamento Local, com acesso ao recinto se assim o quiserem. O Iminente realiza-se de 17 a 20 de Setembro.
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Seis pessoas em situação de sem-abrigo decidiram manter-se na Escola Afonso Domingues e vão ter dormida durante as quatro noites do festival em Alojamento Local, com acesso ao recinto se assim o quiserem. O Iminente realiza-se de 17 a 20 de Setembro.

Um trabalhador pinta o teto de uma sala durante uma conferência e visita de imprensa ao recinto do Festival Iminente para dar a conhecer o espaço (fotografia de José Sena Goulão/Lusa)

A Escola Industrial Afonso Domingues, encerrada em 2010 por causa dos planos da construção da Terceira Travessia do Tejo, vai ser o recinto do Festival Iminente nos dias 17 a 20 de Setembro. E as seis pessoas em situação de sem-abrigo que ainda vivem no local, apesar de o mesmo ter sido vedado em Abril, vão pernoitar num espaço perto da antiga escola e ter acesso ao festival, informou Juliana Almeida, durante uma visita com jornalistas ao recinto, que se realizou no início do mês.

“O Iminente nunca pediu para as pessoas saírem. Sempre acreditámos que há espaço para a coexistência”, referiu Juliana Almeida. Segundo indicou a responsável, quando o Iminente chegou à Escola Afonso Domingues para começar a preparar o festival, existiam 22 pessoas a pernoitar naquele espaço. Essas pessoas já estariam sinalizadas pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) e a ser acompanhadas pela Associação Vida Autónoma (AVA).

Em conjunto com a CML e a AVA, foi encontrada solução de alojamento para a maioria, mas seis quiseram manter-se na antiga escola, indicou Juliana Almeida aos jornalistas. “Essas pessoas mantêm-se aqui, vivem aqui e, obviamente, o público não vai poder aceder à zona onde vivem”, disse, referindo que duas das pessoas que ali vivem estão a trabalhar com a organização, “na preparação do espaço, e nas artes visuais”. Durante os dias do Iminente, a organização garantiu um alojamento perto da antiga escola, onde essas pessoas poderão passar a noite, mas tendo acesso ao festival, se assim entenderem.

“Essa ideia de coexistência, que é muito forte no Iminente, está a ser aplicada aqui, de uma forma até física, porque estamos a fazer o festival, a preparar o festival e há pessoas que vivem aqui. Mas estamos alinhados, temos um diálogo aberto com todas as pessoas que ainda habitam o espaço”, disse.

A directora do Festival Iminente, Juliana Almeida (fotografia de José Sena Goulão/Lusa)

Ao Observador, a organização do festival indicou que “foi disponibilizada aos moradores uma solução de alojamento temporário, em Alojamento Local, para os quatro dias do festival, especificamente para os períodos em que o recinto estará aberto ao público”, tratando-se de uma “alternativa temporária” para que as pessoas que viviam naquele espaço possam ter “maior privacidade e descanso” durante os dias do evento. O jornal escreve que as pessoas que aceitaram a oferta aceitaram levar apenas o essencial, mantendo os pertences habituais no interior da antiga escola.

Juliana Almeida disse, ao mesmo jornal, que a solução encontrada em Alojamento Loca foi “conversada com os próprios moradores ao longo dos últimos meses” e sublinhou que, apesar de haver uma “separação física entre as zonas habitadas e o recinto aberto ao público”, a organização entendeu que “fazia sentido disponibilizar esta alternativa” dado que “um festival desta dimensão implica mais movimento, ruído e intensidade no espaço”.

Em meados de Abril, o recinto da antiga escola foi vedado pela Câmara de Lisboa com um aviso de “desocupação” à entrada, dando conta de que seria “vedada a permanência e o acesso ao local” e que “quaisquer pertences ou bens pessoais (…) deveriam ser retirados” até ao final daquele mês para a preparação do festival Iminente. Depois de uma reportagem do Observador e de alguma pressão pública, a desocupação total do imóvel acabou por não ser efectivar, tendo as pessoas que ali residiam podido permanecer no local. Uma parte acabou por sair pelo próprio pé. Ao LPP, a AVA disse, em Junho, que as pessoas estavam a ser encaminhadas “para respostas sociais como centros de acolhimento”, sem adiantar mais detalhes.

Nesse mesmo mês, a organização do Festival Iminente tinha explicado ao LPP que estava a ser feito “um trabalho de proximidade e diálogo no terreno, caso a caso”. “Desde o início, a nossa posição foi clara: o Iminente não promove nem executa qualquer processo de despejo ou expulsão. O Festival Iminente tem procurado colaborar de forma responsável neste processo, mantendo contacto próximo com as pessoas que permanecem no espaço e articulando permanentemente com a CML e a AVA”, acrescentou.

Iminente celebra dez anos em espaço com “muitos desafios” e “muitas possibilidades”

O Festival Iminente, que junta música e artes plásticas, realiza-se este ano, pela primeira vez, na antiga Escola Industrial Afonso Domingues, em Marvila, encerrada há 15 anos. O espaço, entretanto votado ao abandono, “trouxe muitos desafios e também abriu muitas possibilidades” à organização, disse à Lusa a diretora do festival, Juliana Almeida, numa visita àquele que, nos dias 17, 18, 19 e 20 de Setembro, será o recinto do Iminente. “Quando entrámos aqui a primeira vez só havia lixo por todos os lados, em todas as salas, por todos os corredores. Esse foi um dos grandes desafios. Não havia água, não havia eletricidade. Estava mesmo ao abandono, com telhas a cair”, descreveu.

Desde Novembro que a organização está na antiga escola a “fazer uma revitalização de tudo o que é possível”, sem mexer na estrutura, mas, por exemplo, abrindo algumas portas, tendo em conta o plano de emergência. As paredes estão cobertas de graffiti, e o espaço será transformado “a partir das artes visuais, mas sempre respeitando o que já existia”.

A ideia de “coexistência”, de que se falava no início do artigo, reflete-se, por exemplo, no cartaz musical, que junta artistas consagrados e emergentes, vários estilos musicais, do rap ao hardcore, passando pelo rock, o fado, a música de intervenção ou o funaná.

Ao longo dos quatro dias, serão mais de 140 os artistas que irão actuar em cinco palcos. Entre os artistas e bandas estão nomes como DJ Premier, Ustad Fazel Sapand, AJULLIACOSTA, La Familia Gitana, Dead City, Sam The Kid (que, com Orquestra e Orelha Negra, irá apresentar o álbum “Beats Vol.1: Amor”), Mind Da Gap, Micro, Mão Morta, num espetáculo com o acordeonista João Barradas e a artista visual Mariana Vilanova, Dino d’Santiago, Batida, Lena d’Água, La Familia Gitana, Gisela João, DJ Marfox e DJ Nigga Fox, Ana Lua Caiano, A Garota Não e UN!DD, projeto que junta Acácia Maior, Cachupa Psicadélica, Fidju Kitxora, Prétu e Scúru Fitchadu.

Na visita ao espaço, guiada também pelo DJ Marfox, que foi estudante na escola, finalista no ano em que o espaço encerrou, ficou a saber-se que o Palco Campo será instalado num dos antigos campos de futebol, cujo chão será intervencionado pela dupla Halfstudio e que no dia 19 irá mesmo voltar a acolher um jogo com equipas de vários clubes de futebol de bairros lisboetas.

Nesta edição regressa o Palco Choque, instalado numa pista de carrinhos de choque, que ficará numa área onde havia um segundo campo de futebol. Num outro espaço exterior, um antigo campo de ténis, ficará o Palco Court, onde atuarão vários DJ, um ‘halfpipe’ e várias intervenções artísticas. É também ali que no último dia será instalado um ‘picadeiro’, da responsabilidade do Festival Precárias, com atividades pensadas para o público infantil.

Já no interior do edifício, o antigo refeitório e sala de lazer, onde se faziam os bailes de finalistas e que está a ser intervencionado pela 3D Crew, vai acolher o Palco Cantina. Numa das noites, o Planeta Manas, que fechou em 2025, voltará ali a ter um espaço, “transformando o encerramento de um espaço queer num argumento sobre continuidade, cidade e pertença”. Haverá também uma noite de celebração da cultura de Cabo Verde, com concertos de funaná, e uma outra de concertos Duro de Roer, evento dedicado à cena hardcore e metalcore.

Artistas e convidados durante uma conferência e visita de imprensa para dar a conhecer o espaço e o festival que decorre entre os dias 17 e 20 de Setembro (fotografia de José Sena Goulão/Lusa)

Noutros espaços interiores, que em tempos foram salas de aulas, laboratórios ou oficinas, estarão a exposição do projeto Bairros (programa de trabalho continuado do Iminente com associações e comunidades de Lisboa), zonas de restauração, lojas, haverá sessões de cinema, conversas, performances de dança e instalações artísticas.

O antigo ginásio, o único espaço aberto ao público no piso de cima do edifício, vai acolher uma instalação de Vhils, uma nova forma de apresentar, com recurso a meios audiovisuais, a obra do artista dedicada ao escritor José Saramago, que está na praia de Paimogo, na Lourinhã. O Nobel da Literatura foi, a par de outras figuras públicas como o antigo líder do PCP Jerónimo de Sousa e o treinador de futebol Fernando Santos, estudante daquela escola, inaugurada em 1956 e que, quando do encerramento, contava com 290 alunos e 80 professores. Além de Vhils, dos Halfstudio e da 3D Crew, o cartaz das artes plásticas inclui ainda artistas como Wasted Rita, ±MaisMenos±, Tamara Alves, Pedrêz, Pedrita, Obey SKTR, Halfstudio e KRUS.

Os passes para os quatro dias de festival custam 60 €, havendo também passes para três dias (17, 18 e 19; 18, 19 e 20), que custam 55 €, passes para dois dias (19 e 20) por 38 €, e bilhetes diários por 20 €. A estes preços acrescentam-se taxas. O recinto tem capacidade para cinco mil pessoas por dia. A programação completa pode ser consultada em festivaliminente.com.


Com Lusa

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