EMEL lança nova aplicação da GIRA sem pontos e sem histórico, e com espaço para melhorar

Depois de anos de queixas, a GIRA tem uma nova infraestrutura tecnológica e uma nova app. Mais rápida e fiável que a anterior, não está sempre a pedir aos utilizadores para fazer “login”, e carrega as estações e bicicletas em instantes. Deixa de haver caução no passe diário ou a obrigatoriedade de NIF português, passa a ser possível pagar com MB Way e o reporte de problemas está mais simples. No entanto, acaba o sistema de pontos e, com a actualização, perde-se todo o histórico de viagens. A aplicação alternativa GIRA+ já foi adaptada ao novo sistema.
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Depois de anos de queixas, a GIRA tem uma nova infraestrutura tecnológica e uma nova app. Mais rápida e fiável que a anterior, não está sempre a pedir aos utilizadores para fazer “login”, e carrega as estações e bicicletas em instantes. Deixa de haver caução no passe diário ou a obrigatoriedade de NIF português, passa a ser possível pagar com MB Way e o reporte de problemas está mais simples. No entanto, acaba o sistema de pontos e, com a actualização, perde-se todo o histórico de viagens. A aplicação alternativa GIRA+ já foi adaptada ao novo sistema.

Chama-se “GIRA a app” e é a aguardada nova aplicação das bicicletas partilhadas de Lisboa (fotografia de Francisco Romão Pereira/LPP)

A EMEL lançou, esta semana, a muito aguardada nova aplicação da GIRA, o sistema público de bicicletas partilhadas de Lisboa. Uma app totalmente nova, que já não apresenta a janela de login recorrentemente aos utilizadores, nem demora demasiado tempo a carregar as estações e as bicicletas. O sistema de pontos desaparece e o histórico de viagens também. **A nova aplicação é uma melhoria significativa mas ainda com lacunas por resolver.

A app substitui a anterior e obriga a uma nova instalação: é preciso ir à App Store, no caso do iPhone, ou à Google Play, no caso do Android, pesquisar por “GIRA a app” e descarregar. As credenciais de acesso mantêm-se as mesmas.

Essa aplicação anterior, lançada originalmente em 2017, tornou-se um mar de problemas, seja pela lentidão no carregamento do mapa de estações e da lista de bicicletas disponíveis, seja por estar constantemente a pedir aos utilizadores para fazerem login, seja por outros bugs e bloqueios. Em Abril de 2026, a EMEL lançou uma actualização para resolver a lentidão e alguns dos problemas mais críticos, enquanto preparava, em paralelo, a contratação de uma solução nova.

A nova aplicação chama-se “GIRA a app” (via EMEL)

A nova app da GIRA foi contratada, em Setembro de 2025, à empresa VAIMOO, que desenvolve sistemas tecnológicos para redes de bicicletas partilhadas. Não foi feito um concurso público, mas um concurso limitado por prévia qualificação – a diferença é que existe uma selecção prévia de candidatos antes da apresentação de propostas. O procedimento teve um preço base de 1,084 milhões de euros, envolvendo a “aquisição de solução informática para gestão, operação técnica e comercial” da GIRA “em modelo de Software as a Service (SaaS)”. Ou seja, a solução que a EMEL contratou à VAIMOO foi uma solução “chave na mão”: não apenas uma nova aplicação, mas todo um novo sistema tecnológico e backoffice para a GIRA.

Por isso, a EMEL precisou de “desligar” a app antiga, tornando-a inoperacional, e migrar as docas e estações para a nova aplicação – processo realizado durante a madrugada desta segunda para terça-feira, 15 de Setembro.

Mais rápida, mas sem pontos

Aplicação foi desenvolvida pela VAIMOO e é uma solução “chave na mão” (fotografia de Francisco Romão Pereira/LPP)

A nova aplicação das bicicletas de Lisboa – a “GIRA a app” – permite chegar ao mapa das estações e desbloquear uma bicicleta de forma muito mais rápida que a anterior. Os utilizadores têm um mapa com pins e o número de bicicletas disponíveis em cada local. Basta clicar num desses pins para verificar as bicicletas disponíveis, assinaladas a verde e ordenadas por ordem decrescente de nível de bateria (as bicicletas com mais bateria aparecem no topo). As bicicletas indisponíveis, seja por avaria/manutenção ou carregamento, passam a aparecer na listagem, deixando de haver a ideia de “bicicletas fantasma”.

Enquanto está a ser realizada uma viagem, o utilizador tem acesso ao mapa mas com informação diferente: em vez do número de bicicletas disponíveis, os pins mostram as estações com docas livres. Passa a haver um código de três cores: verde, com lugares disponíveis; vermelho, sem docas livres; e cinzento, quando uma estação está desligada ou indisponível.

O sistema de pontos desaparece e a EMEL vai ainda encontrar uma solução para os utilizadores converterem os pontos acumulados até aqui, não antecipando mais detalhes. O histórico de viagens antigo desaparece também – os utilizadores não têm forma de descarregar o histórico anterior e de o importar para a nova app. Há uma nova secção de estatísticas, o sistema de pagamentos foi substancialmente melhorado, deixa de haver caução no passe diário, e o NIF deixa de ser obrigatório para usar a GIRA.

Confere todas as novidades da “GIRA a app” de seguida:

As novidades da nova app

  • Bug do login resolvido: a nova aplicação já não pede para repetir logins. Uma vez iniciada sessão com o e-mail e password, a sessão permanece iniciada. Por outro lado, o formulário de login já é reconhecido como tal, pelo que já podes guardar as credenciais de acesso no teu gestor de passwords (por exemplo, no iCloud ou no Google Password Manager);
  • Fim do sistema de pontos: a EMEL decidiu abandonar o sistema de pontos que tinha sido criado para permitir o balanceamento da rede (os utilizadores ganhavam pontos com as viagens que faziam – ganhavam mais pontos quando saíam de uma estação cheia e deixavam a bicicleta numa estação vazia). Os pontos acumulados até aqui vão permanecer congelados até a empresa decidir uma forma de os utilizadores os converterem em algo, mas não existem mais detalhes. Deixa de ser possível acumular novos pontos ou de usar os pontos actuais para pagar minutos extra;
  • Fim da caução no passe diário: o passe diário da GIRA, que tem um custo de 2€ exigia um adicional de 300€ como caução – este valor ficava cativo na conta bancária dos utilizadores durante algum tempo. A EMEL optou para deixar cair esta caução, pelo que quem estiver de visita a Lisboa e precisar de utilizar a GIRA para se deslocar, poderá fazê-lo por 2€/dia;
  • Fim dos 5 minutos de espera entre viagens: se uma bicicleta der problemas durante uma viagem, já não é preciso aguardar 5 minutos numa estação para tirar outra;
  • Novo mapa, nova organização de bicicletas e novo código de cores: o mapa das estações carrega substancialmente mais rápido que a versão anterior da aplicação e o processo entre abrir a app e desbloquear uma bicicleta é também rápido. As bicicletas passam a estar ordenadas por ordem decrescente de nível de bateria (as que têm mais bateria aparecem no topo da lista) e a lista passa a incluir as bicicletas indisponíveis por avaria ou carregamento. Por outro lado, quando se está com uma viagem activa, passa a haver um código de três cores para as estações: a verde, as que têm docas livres; a vermelho, as que estão cheias; a cinzento, as que estão indisponíveis;
  • Subscrever mais que um passe: os utilizadores passam a poder ter mais que um passe na sua “carteira GIRA”. Isto abre portas a passes especiais: por exemplo, um evento pode decidir oferecer um passe aos participantes que, em vez de dar viagens de 45 minutos, permite duas horas gratuitas. Os utilizadores poderão ter esse passe activo e sobreposto ao passe anual;
  • Fim das restrições de NIF: estudantes de Erasmus ou outras pessoas que viessem passar uma temporada alargada a Lisboa não podiam subscrever o passe mensal ou anual da GIRA, apenas o diário. Isto porque não tinham um NIF português. Esta limitação acaba com a nova aplicação;
  • MB Way e melhorias no carregamento de saldo o MB Way passa a estar disponível como forma de pagamento, substituindo a utilização do PayPal. Assim, os utilizadores passam ter três opções para carregar saldo na GIRA: MB Way, referência Multibanco ou Cartão de Crédito. O saldo pode ser utilizado para comprar um passe ou pagar minutos extra de viagens. Futuramente, será adicionada opção Apple Pay/Google Pay. Por outro lado, o carregamento de saldo é mais instantâneo, deixando de demorar longos minutos ou até uma hora como acontecia antes;
  • Saldo deixa de ser comum entre GIRA e ePark: o saldo da GIRA deixa de ser comum à aplicação ePark. E o saldo antigo da GIRA não transita para a nova aplicação. Assim, quem tinha dinheiro na GIRA poderá usar esse dinheiro apenas na ePark para pagar estacionamento em Lisboa, a não ser que peça à EMEL a devolução do valor. Se quiseres transferir o teu saldo do ePark para a nova app da GIRA (ou vice-versa), é preciso ligar para o 211 163 060, indicar o NIF e o valor a transferir (demora até 48 horas);
  • Histórico do zero: a nova aplicação chega sem histórico de viagens ou utilização. A EMEL não importou o histórico dos utilizadores do sistema antigo para o novo, nem permite aos utilizadores exportarem o histórico antigo de viagens para o seu dispositivo;
  • Estatísticas: a aplicação passa a mostrar valores estimados do CO2 (dióxido de carbono) que não foi emitido à conta da utilização da GIRA, em comparação com as mesmas viagens realizadas de carro. Há também alguns dados da distância total percorrida e da duração total das viagens – por dia, por semana, por mês e por ano. Não há opção de exportar esse registo de viagens, mas é agora possível exportar cada viagem em formato GPX para importar para aplicações como o Strava;
  • Novo “Centro de Ajuda”: é nesta secção que se pode aceder à funcionalidade de reporte de problemas – seja uma avaria num travão, uma bicicleta com o pneu em baixo, ou uma doca vandalizada, a EMEL está agora disponível para receber as denúncias dos utilizadores, que podem ser feitas com texto e fotografias. Desta forma, é possível libertar pressão da linha telefónica de apoio, que continua naturalmente disponível;
  • Modo horizontal: durante as viagens, passa a ser possível utilizar a aplicação na horizontal, o que é útil para quem quiser colocar o telemóvel na bicicleta e seguir indicações de percurso através do Google Maps ou Apple Maps (a GIRA passa a ter atalhos directos para estas duas aplicações);
  • Guias e tutoriais ao longo da aplicação: foram adicionados alguns ecrãs que ajudam os novos utilizadores a compreender como funciona a GIRA e como as bicicletas devem ser usadas na cidade. Por exemplo, há uma mensagem que explica que é preciso aguardar pelo som de desbloqueio para retirar a bicicleta, e que nada serve puxá-la enquanto esse aviso não se ouvir. Há outra mensagem que sugere ao utilizador que verifique se a bicicleta está em condições antes de iniciar viagem. Algumas destas mensagens aparecem só durante a primeira utilização, mas estão sempre disponíveis no novo “Centro de Ajuda”.

Como referido no início do artigo e detalhado por um utilizador do Reddit, a aplicação da GIRA não foi feita de raiz, assentando na plataforma “white-label” da VAIMOO, o que limita o que a EMEL pode ou não fazer em cima desse software. A plataforma é usada numa série de cidades italianas, bem como em Roterdão e Berlim, e, como refere esse internauta, o código-base da app parece partilhar origem com a app do antigo sistema público de bicicletas partilhadas de Copenhaga, a julgar pelos nomes internos de pacotes que ficaram no código.

Ainda assim, a tecnologia da VAIMOO tem funcionalidades que não estão activadas em Lisboa, como a possibilidade de login com uma conta Google, Apple ou Facebook, a marcação de estações como favoritas ou a reserva de bicicletas com antecedência, antes de chegar a uma estação – ou seja, há aqui um conjunto de novidades que a EMEL pode introduzir sem grande esforço na rede GIRA, por já existirem na plataforma que suporta a app.

Mas há também espaço para ajustes que vão além do que a VAIMOO já oferece de raiz: uma melhor integração com o Navegante, afinações no design da interface, mais estatísticas de utilização e a possibilidade de exportar o histórico antigo de viagens.

O que poderia ser melhor na nova app

  • Integração Navegante: os residentes em Lisboa com passe Navegante podem beneficiar de acesso gratuito à GIRA, mas associar o cartão à conta está longe de ser evidente – o processo obriga a sair da conta e a fazer a associação na janela de login, o que não é intuitivo. Seria pertinente a EMEL simplificar esta integração;
  • Mais informação durante a viagem: durante a viagem, não basta saber que docas estão livres nas estações – importa também saber quantas bicicletas estão disponíveis nas estações, para que o utilizador possa trocar a bicicleta que está a usar caso esta apresente algum defeito ou avarie a meio da viagem;
  • Lista de bicicletas grande e redundante: a lista de bicicletas disponíveis numa estação é pouco compacta, mostrando apenas duas de cada vez. Remover as imagens e a informação sobre o passe permitiria ver mais bicicletas de uma só vez. Por outro lado, a possibilidade de ordenar as bicicletas não só por nível de bateria, mas também por posição na doca, seria uma melhoria bem-vinda;
  • Mapa em zoom out: ao fazer zoom out, os pins das estações vão sendo agregados em ícones genéricos da GIRA, que deixam de transmitir informação sobre a cobertura da rede. Uma solução mais eficaz, como pequenos pontos, permitiria manter essa visibilidade mesmo a uma escala mais ampla de cidade;
  • Reporte de problemas: o reporte de problemas em estações e bicicletas devia estar mais acessível na aplicação – seja durante uma viagem, seja no mapa das estações, seja no menu lateral da bicicleta, permitindo colocar os utilizadores a contribuir para a melhoria do sistema e libertando a linha telefónica de apoio ao cliente;
  • Mais estatísticas: as estatísticas de CO2 e de utilização são um ponto positivo, mas a aplicação poderia ir mais longe, mostrando também dados como as estações ou as bicicletas mais usadas;
  • Exportação de histórico de viagens: a EMEL deveria garantir a importação do histórico de viagens dos utilizadores para a nova aplicação ou, não sendo isso possível, disponibilizar uma ferramenta que permita exportá-lo para o dispositivo.

No geral, a EMEL promete “um interface mais intuitivo, uma experiência melhorada, uma nova carteira digital e um apoio ao cliente facilitado”, o que permite “uma experiência renovada e uma operação mais fiável e previsível no dia-a-dia de quem utiliza a GIRA”, conforme indica a empresa municipal de mobilidade de Lisboa em comunicado. “A vasta experiência acumulada na gestão do serviço permitiu identificar oportunidades de melhoria e desafios técnicos que motivaram a decisão da EMEL de reconstruir na íntegra o ecossistema tecnológico que suporta a aplicação”, acrescenta.

A nova aplicação da GIRA era um desejo antigo dos utilizadores (fotografia de Francisco Romão Pereira/LPP)

O lançamento da nova app foi assinalado na terça-feira de manhã, 15 de Setembro, com um evento na estação GIRA de Entrecampos, para o qual a empresa de mobilidade não convidou antecipadamente nem os utilizadores, nem a comunicação social. O Vice-Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Gonçalo Reis, marcou presença no momento. No entanto, na véspera, num evento reservado, a EMEL apresentou a alguns jornalistas a nova aplicação.

Aplicação alternativa adapta ao novo sistema

As aplicações alternativas mGIRA e GIRA+ foram desenvolvidas pela comunidade de utilizadores da GIRA em resposta aos problemas da app oficial. A EMEL chegou a bloqueá-las por duas vezes, mas foi sempre ultrapassada pelos programadores da mGIRA/GIRA+, que conseguiram contornar os bloqueios – até que a empresa simplesmente deixou as duas app funcionar.

Com o lançamento da “GIRA a app”, era expectável que tanto a mGIRA como a GIRA+ ficassem definitivamente inoperacionais, uma vez que o backend do sistema de bicicletas foi alterado. No entanto, os autores da GIRA+ colocaram, no dia de lançamento da nova app oficial, um aviso de que a sua aplicação seria adaptada em 48 horas “ao novo sistema GIRA”. Na manhã seguinte, dia 17 de Setembro, essa nova versão já estava disponível no GitHub para Android, e a aguardar aprovação na App Store e Google Play – onde já está disponível, entretanto.

Em comparação com a aplicação oficial, a GIRA+ adopta uma interface mais simples no processo de escolha de bicicleta na estação, com uma lista mais condensada. O mapa também tem uma solução de design mais interessante: ao fazer zoom out para ver toda a cidade, é possível ver pontinhos verdes para cada estação, em vez dos ícones grandes usados na “GIRA a app”.

Irá a EMEL inspirar-se nas ideias da GIRA+ para melhorar a sua aplicação oficial?

A GIRA conta com mais de 200 estações pela cidade e uma frota superior a duas mil bicicletas, e integra hoje a rotina de mais de 40 mil utilizadores, que realizam diariamente mais de nove mil viagens. “Desde o início, já foram percorridos 70 milhões de quilómetros, o equivalente a mais de 1 700 voltas ao redor da Terra e a mais de 90 viagens de ida e volta à Lua. Estes números contribuíram fortemente para alcançar uma redução de emissões de CO2 superior a 8 400 toneladas”, segundo a empresa de mobilidade de Lisboa.

Enquanto a GIRA recebe uma nova aplicação, a EMEL continua a resolver o problema do vandalismo das estações. Diariamente, técnicos da empresa têm sido vistos a reparar as docas afectadas e gradualmente as mesmas têm ficado novamente operacionais.

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Jornal LPP #8

Chegou o Jornal de Outono

Nesta edição, focamo-nos nos quiosques de Lisboa e perguntamos: de quem são e para quem são estes espaços? Mergulhamos na pouca transparência destes equipamentos municipais e respectivas concessões, à boleia dos casos da Estrela e da Marinha.