Nos bastidores da transformação do Chiado: há mais espaço para caminhar no centro histórico da cidade

O Chiado está um pouco diferente. O programa “Viva A Rua” alterou sete ruas desta zona, aumentando as áreas pedonais. Um projeto que pretende devolver a rua aos lisboetas e visitantes, e estimular o comércio local. Acompanhámos os últimos preparativos desta renovação.
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O Chiado está um pouco diferente. O programa “Viva A Rua” alterou sete ruas desta zona, aumentando as áreas pedonais. Um projeto que pretende devolver a rua aos lisboetas e visitantes, e estimular o comércio local. Acompanhámos os últimos preparativos desta renovação.

P Chiado ganhou mais espaço pedonal (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

Quem visita o Chiado pela primeira vez não entende as diferenças naquele bairro histórico, mas para os residentes, comerciantes e transeuntes diários o Chiado ganhou uma nova configuração: mais espaço pedonal. Para quem sobe a Rua do Carmo até aos Armazéns do Chiado, as marcas nos paralelos a imitar o desenho da calçada artística portuguesa delimita a área onde os peões podem caminhar, reforçando o carácter pedonal daquela rua desde a década de 1990. Enquanto decorrem os trabalhos dos funcionários da CML, liderados por Francisco Augusto, o cheiro ácido do produto primário para a tinta branca aderir na pedra, quase semelhante ao do diluente, não deixa ninguém indiferente. 

Lisboa tem mais espaço para caminhar. À saída dos Armazéns do Chiado, a Rua Garret divide-se de uma forma diferente: do lado esquerdo, a calçada pertence agora aos peões; do lado direito, à circulação automóvel. Esta intervenção insere-se no programa Viva A Rua, um projeto dividido em três fases na cidade. “O Viva A Rua é um programa que vai ao encontro das tendências atuais e que vai permitir uma melhor experiência a todas as pessoas. Na prática, nós estamos a ajustar a infraestrutura as vias, a utilização”, começa por explicar Gonçalo Reis, vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML). “Por exemplo, aqui no Chiado, na Rua Garret, nós fizemos medições e por dia passam 22 mil pessoas a pé e quatro mil viaturas. Ora, então, o que nós temos é de ajustar a infraestrutura a essa utilização.” A observar os trabalhos entre a Rua do Carmo e a Rua Garret, Gonçalo Reis esclarece que esta primeira intervenção abrange sete ruas: a Rua Garrett, a Rua Nova do Almada, a Rua do Carmo, a Calçada do Sacramento, a Rua Ivens, a Rua Anchieta e a Rua Serpa Pinto.

Esta nova configuração permite aos peões parar e contemplar os espaços sem a preocupação de estar na faixa de rodagem. É exemplo a Igreja do Santíssimo Sacramento, reconstruída após o terramoto de 1755 e a única igreja da cidade direcionada para nascente, localizada na Calçada do Sacramento. Esta via é agora mista e permite que a área reservada aos peões no lado esquerdo seja mais ampla e possibilite contemplar os traços do estilo tardo-barroco do edifício. “O que estamos a fazer é alargar os passeios pedonais em algumas das ruas até 40 por cento, mas mantendo a circulação viária”, aponta o vice-presidente da CML. “No fundo, estamos a dar mais conforto, mais segurança, mais zonas de convivência às pessoas” porque “mesmo durante os trabalhos, nós vemos as pessoas a aderirem imediatamente [aos novos passeios] e isso é muito interessante”, destaca. Os lugares de estacionamento deram lugar a mais espaço pedonal e, por essa razão, apenas se mantiveram aqueles destinados a cargas e descargas, a residentes, tomada e largada de passageiros e outros serviços, como os de táxi. Os sete lugares de tuk tuk foram removidos, o que agradou a alguns comerciantes. 

A entrada que aparenta ser a de uma carruagem de comboio luxuosa é, na verdade, a André Ópticas. Ao entrarmos nesta loja – distinguida este ano com o Best Store Award (o melhor design de ótica no mundo) na MIDO 2026, a maior feira mundial de eyewear – conhecemos Marília Ribeiro, Álvaro Duarte e Beatriz Batista. “Só ontem é que soubemos o que iam fazer aqui”, conta Marília, optometrista há dois anos e meio na André Ópticas. “Pelo que percebi, vão colocar uns vasos ali e daí é fazerem com que as pessoas andem mais e que não haja tantos carros. E retiraram os tuk tuk daqui.” Os três concordam com os benefícios para a loja e para o Chiado: “por um lado é logo bom, embora me desse bem com eles [os condutores de tuk tuk], mas é bom porque começava a ser muito caótico” no sentido de “as pessoas andarem sempre no meio dos tuk tuk, depois tínhamos sempre de ter atenção”, afirma a optometrista. Álvaro concorda: “as pessoas estão mais descontraídas, não têm tantos veículos para se desviar”. Na opinião de Marília, que Álvaro e Beatriz subscrevem, esta reestruturação “vai permitir mais visibilidade porque quem passava do outro lado da estrada tinha duas filas de carros, mais os carros que passavam. Quem estava do outro lado nem sequer se apercebia da loja deste lado.”

Mas não foram só os lugares de tuk tuk que desapareceram da paisagem do Chiado: dezenas de lugares de estacionamento deixaram de estar acessíveis nesta zona e a autarquia chegou a um acordo com as operadoras dos parques subterrâneos Parque Chiado e Parque Camões para que os residentes tenham estacionamento com uma redução na tarifa. Assim, ficam reservados nas sete ruas intervencionadas 23 lugares para residentes, 12 para tomada e largada de passageiros e 13 para cargas e descargas. As únicas ruas sem estacionamento nesta nova configuração são a Rua Garret, a Rua do Carmo, a Rua da Anchieta e a Calçada do Sacramento. 

Álvaro Duarte, Marília Ribeiro e Beatriz Batista concordam que este programa vai ser benéfico para o Chiado (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

E porque é que o Chiado não é totalmente pedonal?

Ao caminhar pela Rua Garret, encontramos Vítor Pereira Silva, dono da loja Gardénia, que nos abre um sorriso. Conta que faz parte do grupo Amigos do Chiado, um dos que a CML auscultou para esta finalidade. A autarquia reuniu ainda com a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, clubes históricos, associações de comerciantes e lojistas e associações de moradores. “Foram pessoas deste grupo que se reuniram com o Gonçalo Reis e com a Câmara e defendemos esta solução. E também preservar um bocadinho a alma do Chiado, não é? É que há aqui um fator muito importante: nós somos o Chiado” porque “são estas as lojas identitárias deste espaço, lojas com história”, afirma Vítor, residente há mais de três décadas no bairro histórico e dono da Gardénia há 38 anos.

Mas qual é a razão para não tornar o Chiado totalmente pedonal?  Importa, primeiro, compreender a morfologia do local: “Contrariamente à Baixa, uma zona plana, o Chiado uma zona íngreme, é uma das sete colinas.” E, por essa razão, caminhar pelo Chiado pode tornar-se uma missão exigente, principalmente para pessoas com mobilidade reduzida ou para idosos. Isto porque, como explica Vítor, a calçada torna-se escorregadia no inverno, e no verão não existem muitos pontos de sombra, o que torna necessário a ida ao centro histórico de transportes ou de automóvel.  Se se tornasse totalmente pedonal, “estas pessoas que são portuguesas iriam afastar-se definitivamente daqui, porque eles têm pouca mobilidade.” Do ponto de vista dos comerciantes, Vítor aponta a debilidade dos transportes públicos: “Nós não temos uma rede de transportes públicos nacional preparada para toda a gente largar o carro. Nos comboios, a partir das oito [da noite] é um problema para ir para a linha. Temos empregados que não conseguem fazer o turno das 10 [da noite] porque as linhas estão em obras. Quer dizer, há vários impedimentos que levam as pessoas a precisar do carro para realmente chegar aos locais de trabalho.” Este aspeto, de modo geral, afeta outras lojas, comenta Vítor: “[Isto] tem levado a que Lisboa fique de certa maneira sem gente mais cedo. O que não é bom. Nós precisamos de uma cidade que à noite também viva”, afirma.

A única rua que se transforma, agora, numa área pedonal, é a Rua da Anchieta, enquanto as restantes se convertem em zonas mistas ou mantêm a sua natureza, como é o caso da Rua do Carmo, que já era pedonal. “E depois o que acontece é o fator psicológico. Quando as pessoas sentem que há um grande impedimento afastam-se e afastam-se para onde não há esse impedimento”, refere ainda o comerciante. “E onde é que não há? Nas grandes superfícies, que os recebem de braços abertos. Isto tem acontecido na baixa nas últimas décadas. E agora no Chiado, se isso acontecesse, eu penso que seria muito grave.”

Vítor Pereira Silva é comerciante há 38 anos e vive no Chiado há pouco mais de 30 e defende a circulação mista (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

Marília, Álvaro e Beatriz também concordam que esta é a solução mais viável para os lojistas: “Temos alguns clientes já com alguma idade e que é necessário deixá-los à porta. Para os próprios estafetas fazerem as entregas, correr uma rua destas sempre a subir com tudo às costas – e nós temos muitas entregas de venda online – e se já com as carrinhas próximas têm de fazer duas e três viagens… acho que isso seria chato”, aponta Marília. Para Álvaro, só se justificava ser totalmente pedonal se “a mobilidade fosse melhor do que está agora, com certeza. Outro acesso de transporte sem ser só metro daria para as pessoas estarem aqui mais à vontade, estarem mais descontraídas. Agora com este tipo de mobilidade não sei se será vantajoso ter só peões.” Neste aspeto, o vice-presidente da CML aponta que teve em consideração esta questão. “É importante porque, por exemplo, os comerciantes e a vida da cidade também pressupõem a circulação viária e, portanto, nós temos que ter soluções equilibradas e foi isso que nós fizemos.” 

A segurança nestes espaços é, também, uma preocupação da autarquia. Apesar de o Chiado ser uma zona “de velocidade muito baixa” em que “a própria morfologia e as curvas acabam por limitar a velocidade dos automóveis”, as delimitações das zonas mistas vão ser asseguradas por mobiliário urbano, explica Gonçalo Reis: “Nós vamos ter mobiliário urbano, plantas e floreiras, que vão também indicar o sentido da divisão, proteger o peão e indicar o sentido da sua prioridade.” Até ao final do mês de setembro, prevê-se a disponibilização de 15 floreiras e 30 bancos para complementar estes espaços. No total, espera-se que sejam instalados 93 bancos individuais e 39 floreiras, lê-se no site da CML. Gonçalo Reis refere ainda que o programa pressupõe adaptações: “Nós sabemos bem o que estamos a fazer, mas estes são projetos também com alguma capacidade de adaptação. Portanto, se nós virmos que daqui a algumas semanas, daqui a alguns meses, existe um ponto de maior perigo, etc, nós aí podemos atuar e reforçar as medidas protetoras.” 

Neste sentido, o dono da Gardénia concorda: “O objetivo que a Câmara tinha, e muito bem, era que as pessoas andassem com mais segurança nos passeios porque chegou a ser muita gente e isso é conseguido com esta solução mista. Portanto, eu acho que esta solução que se conseguiu é a melhor dos dois mundos.”

“Nós queremos os portugueses, os lisboetas, os locais, de volta ao Chiado”

As últimas intervenções no Chiado decorrem sob o olhar atento dos comerciantes, dos turistas e daqueles que caminham com o passo apressado. Nesta azáfama típica de uma tarde de setembro, Gonçalo Reis fala com um casal de residentes do bairro histórico sobre os últimos preparativos desta reformulação na Rua Garret. Falam sobre a questão do estacionamento e do ambiente que resultará deste alargamento aos peões. “Esta estratégia é uma estratégia que nós temos em zonas da cidade em que devemos valorizar o peão, mantendo sempre a circulação automóvel ou de transporte público, e que vamos alargar ao peão”, considera o vice-presidente. 

O programa Viva A Rua tem, para já, mais duas fases de implementação: a da Rua da Escola Politécnica, no Príncipe Real, e na Rua de Belém, entre o Palácio de Belém e o Mosteiro dos Jerónimos. A fase de projeto termina este ano e prevê-se que a sua implementação ocorra no primeiro trimestre de 2027. Na Rua da Escola Politécnica “Vamos fazer semelhante, em que um dos lados da via vamos alargar o passeio público e aí as pessoas vão ter uma fruição muito mais agradável, com uma vivência que eu acho que vai ser muito mais qualificada”, enquadra Gonçalo Reis. Na Rua de Belém, “também vamos alargar passeios e aí vamos mais longe, até porque vamos privilegiar claramente o transporte público, mas são projetos que estão a ser desenhados pelas nossas equipas.” As equipas multidisciplinares nas áreas da mobilidade e do espaço público da CML têm mostrado interesse neste programa, diz Gonçalo Reis, porque “as nossas equipas gostam de trabalhar em projetos que fazem a diferença, que estão alinhados com as tendências e são projetos de futuro e isso tem sido muito interessante.”

Neste sentido, alargar este programa a outras zonas da cidade está nos planos da autarquia. “temos já as nossas equipas a trabalhar em ideias e projetos e estamos seguros de que este programa vai ter muita adesão e muito interesse das juntas de freguesia, dos bairros e das pessoas”, afirma Gonçalo Reis. 

Gonçalo Reis está confiante no programa Viva a Rua, Lisboa! e espera alargá-lo a mais zonas da cidade em 2027 (fotografia de Bárbara Monteiro/LPP)

Para quem conhece o Chiado, vai notar a diferença na paisagem e no fluxo de peões; para quem o visita pela primeira vez, poderá desfrutar das lojas históricas, dos monumentos e das vistas sob a cidade com o olhar mais desafogado. No fundo, “é trazer Lisboa para a rua mantendo a circulação viária que é importante, mas dar espaço ao peão, dar espaço às famílias e dar espaço também ao comércio.” Um dos bairros históricos de Lisboa passa, agora, a ter outra vida: “Vários dos comerciantes me têm dito aqui isso é muito interessante que esta iniciativa vai atrair os portugueses de volta ao Chiado porque é bom nós termos os nossos locais a fruírem, a vivenciarem o Chiado e essa é uma grande aposta nossa.” E esse é o objetivo último: “Nós não temos de ter receio de afirmar isto: queremos os portugueses, os lisboetas, os locais, de volta ao Chiado.”

A inauguração oficial da reestruturação do Chiado decorreu no dia 16 de setembro, com a presença de Carlos Moedas, presidente da CML.

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Jornal LPP #8

Chegou o Jornal de Outono

Nesta edição, focamo-nos nos quiosques de Lisboa e perguntamos: de quem são e para quem são estes espaços? Mergulhamos na pouca transparência destes equipamentos municipais e respectivas concessões, à boleia dos casos da Estrela e da Marinha.