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São TukTuks? Não, são crianças felizes

O projecto Cresc(h)e Na Rua tem como objectivo retirar as crianças das creches e infantários, nos quais não têm acesso a espaços naturais e abertos, e devolver-lhes a alegria de estar na rua e de fazer parte activa da cidade.

Fotografia LPP

“A rua está em vias de extinção. Olhamos para a cidade e já não vemos crianças a brincar. Passeiam-se mais os cães do que as crianças.”

– Carlos Neto, Expresso (2019)

Carlos Neto, professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa e um dos maiores especialistas na área da brincadeira, fazia esta declaração ao Expresso em 2019. Neto critica as escolas e actual modelo de aprendizagem que fecham as crianças em salas de aula, oferecendo-lhes tempos de brincadeira curtos e padronizados. Esta sua crítica é explorada no livro Libertem As Crianças, editado em 2020, onde o professor lembra a importância não só do brincar de forma livre na rua, mas também do cair ou do se aleijar.

Inspirados pelas palavras de Carlos Neto – e pelo surgimento na família de um novo membro –, os pais Ana Pereira e Bruno Santos lançaram o projecto Cresc(h)e Na Rua. Integrado nas actividades da Bicicultura, cooperativa à qual pertencem, esta iniciativa usa bicicletas de carga para tirar crianças do interior das creches e infantários, levando-as para a rua. Podem ser jardins, hortas urbanas, parques infantis ou qualquer outro espaço ao ar livre que exista nas redondezas. Podem também ser cinemas, teatros, museus ou locais com actividades para crianças – não são ambientes de rua, mas oferecem experiências diferentes aos mais pequenos.

Durante os trajectos, as crianças podem interagir com a cidade e o que está a acontecer nela. Vêem e são vistas por quem está no espaço público, sentado numa esplanada ou em circulação. Apontam, comentam, riem-se, acenam. E são acenadas de volta.

Fotografia LPP

O Cresc(h)e Na Rua está a decorrer como projecto-piloto em dois estabelecimentos educativos no bairro da Graça, nas freguesias de São Vicente e Penha de Franca. “Este projecto faz sentido ser por bairro, fixando-se na proximidade de um conjunto de creches e infantários. Encontramos um sítio para guardar os triciclos, que pode ser um desses estabelecimentos, e depois circulamos ali a volta com as crianças”, explica-nos Ana. “Estamos neste momento em dois locais, na Creche da Graça e na Voz do Operário. As crianças da Voz já saem normalmente dois dias por semana. Penso que é uma creche que sai mais que o normal. Mas com estes triciclos podem ir a sítios diferentes e mais longínquos.”

Nesta fase, o Cresc(h)e Na Rua conta com três triciclos para o transporte de crianças. Os veículos, que à primeira vista parecem TukTuks, são, na verdade, bicicletas de carga, movida com a energia do pedalar e da assistência eléctrica. Cada triciclo consegue transportar um máximo de oito crianças entre os 2 anos e os 6 ou 8 anos, dependendo da orografia do percurso. “Se o percurso for plano, conseguimos chegar aos 8 anos. Se não for totalmente plano, como aqui na Graça, não podemos transportar miúdos tão crescidos.”

Pelo menos uma vez por semana, os triciclos do Cresc(h)e Na Rua circulam pela Graça e Penha. Acostumadas já às suas passagens, várias pessoas acenam aos triciclos e aos seus passageiros, mas a estranheza de outras leva a olhares de curiosidade e a tentativas de descodificar que raio de veículo é aquele. O que é certo é que, apesar de serem ainda as primeiras saídas, os triciclos do Cresc(h)e Na Rua já não passam despercebidos. Os destinos são quase sempre na proximidade, pois a ideia e também aproveitar o que há localmente. As rotas são definidas e testadas pela Bicicultura para garantir que não só que são seguras mas também que são relativamente planas para estes triciclos em específico, uma vez que com o peso das crianças não é possível vencer toda e qualquer subida. “Identificamos e testamos as rotas, e depois colocamo-las num mapa partilhado para que as educadoras, que vão conduzir os triciclos, possam saber qual e o caminho em que podem confiar. A ideia passa por este mapa ser uma coisa em permanente co-construção com educadoras de infância e com os pais e mães das crianças”, explica Ana.

A saída que seguimos contou com o acompanhamento de Ana e de Bruno, bem como da Polícia Municipal; mas nem sempre será assim. Os triciclos são conduzidos por educadoras de infância ou auxiliares dos estabelecimentos que participam no projecto, mas podem sê-lo também por pais ou mães voluntários. Os condutores recebem “formação em condução da bicicleta no geral e depois formação específica de uso destes triciclos”, num total de 20 horas teóricas e práticas, na rua e em ambiente controlado. “Depois, acompanhamos as primeiras saídas até as educadoras se sentirem confortáveis em fazê-las sozinhas. O nosso plano é acompanhar as primeiras saídas e depois avaliar. Poderá passar a ser precisa escolta nossa ou da polícia só quando é uma rota nova ou uma saída para um destino mais longe.”

Na Graça, os triciclos ficam guardados na Escola Gil Vicente, “que gentilmente os acolheu”. É a partir desta escola que partem com as crianças da Voz do Operário ou da Creche da Graça a descoberta da cidade. As educadoras podem escolher um destino e respectiva rota do tal mapa colaborativo de locais e eventos. No dia que visitámos o Cresc(h)e Na Rua, o destino foi um parque infantil na Penha de França, mas as crianças não se ficam pelo seu quilómetro quadrado e vão a outras freguesias melhor servidas de espaços de recreio e de serviços culturais e que não são assim tão longínquas – o Parque Ribeirinho Oriente fica a apenas 8 km, e um festival de cinema no Campo Pequeno fica a 5 km. O Cresc(h)e Na Rua conta ainda com duas parcerias relevantes: uma com o Escola Lá Fora, um modelo educativo que procura desenvolver as capacidades das crianças em contexto natural, de mata ou floresta; e com o Brincapé, um projecto que procura estimular a brincadeira nas crianças através de várias actividades, como o Território Brincapé. Os espaços de acção destes dois projectos são também destinos das saídas dos triciclos esverdeados.

Fotografia LPP

Com o Cresc(h)e Na Rua, Ana e Bruno procuram mitigar os défices das instalações das cresces e infantários da cidade ao nível do acesso a espaços naturais e abertos. Em Portugal, as crianças têm um acesso diário muito insuficiente ao ar livre (16-30 minutos, em média, menos do que os reclusos, menos do que os cães), em particular a espaços verdes naturais. Esta situação está muito longe do mínimo recomendado de três horas por dia. No caso particular de Lisboa, 70% das freguesias têm menos de 10 m2 de espaços verdes por habitante, 25% têm menos de 1 m2 por habitante. As creches e infantários não têm mais do que os 2 m2 obrigatórios por criança em salas de actividades interiores, e não são obrigadas a ter espaço exterior – muitas não o têm e, quando o têm, é muitas vezes bastante reduzido e quase completamente artificial, faltando árvores, terra e outros elementos naturais.

A falta de oportunidades para as crianças estarem ao ar livre, serem fisicamente activas, estarem na natureza e brincarem livremente está relacionada com uma série de problemas de saúde, como ansiedade, obesidade e alergias, e compromete o desenvolvimento das capacidades motoras, emocionais e cognitivas das crianças, o que tem impacto no seu bem-estar actual e nas suas perspectivas de vida futura. Por outro lado, as crianças que vivem em bairros mais pobres têm pouco acesso a infraestruturas de lazer e serviços de cultura dentro e fora do horário escolar – tanto porque os pais trabalham muitas vezes longas horas durante a semana e ainda aos fins-de-semana, como porque essas infraestruturas e actividades não estão disponíveis nas proximidades das suas casas, e porque as suas escolas também têm menos recursos para lhes proporcionar essas oportunidades.

Fotografia LPP

Para as escolas, sair com grupos de 16 crianças com idades entre os dois e três anos ou com grupos de 25 crianças com idades entre os três e seis anos (número máximo de alunos por turma nas creches e nos infantários, respectivamente) não é fácil. Andar a pé é muitas vezes cansativo e arriscado, porque os passeios geralmente não existem, são demasiado estreitos ou têm carros estacionados; o tráfego rodoviário é demasiado intenso e rápido; e há uma falta de árvores para atenuar o calor e de bancos para descansar sempre que necessário. Os transportes públicos também não são muito amigáveis para grupos tão grandes de crianças pequenas. E as carrinhas e os autocarros são caros para as instituições alugarem.

Assim, as crianças de bairros mais desfavorecidos, onde andar a pé é mais difícil e perigoso, os transportes públicos são mais fracos e as escolas ou os pais não podem pagar carrinhas para passeios regulares, são duplamente deixadas de fora. Construir cidades mais caminháveis e cicláveis, com mais e maiores parques naturais, proporcionar às escolas um serviço regular e gratuito de autocarros escolares, ou tornar obrigatórios e financiar a construção de espaços verdes naturais para as crianças brincarem dentro das escolas… Todas estas são políticas públicas que Ana e Bruno gostariam de ver implementadas, mas que não estão ao seu alcance. O projecto Cresc(h)e Na Rua aproveita a cidade que se tem hoje, melhorando-a com uma solução barata e leve: bicicletas de carga.

Fotografia LPP

Quando este piloto terminar, no final deste ano, os triciclos serão integrados na veloteca da Bicicultura – um “banco comunitário de bicicletas” que esta cooperativa, focada na promoção da bicicleta em ambiente urbano, tem vindo a construir. Ate lá, os triciclos continuarão a distribuir energia pela Graça e pela cidade. Ana e Bruno acreditam que esta iniciativa poderia ser replicada noutros bairros e núcleos de creches e infantários da cidade, sobretudo nos bairros mais desfavorecidos. No entanto, o Cresc(h) Na Rua é uma iniciativa financiada pelo programa municipal BIP/ZIP e tem financiamento assegurado só até ao final deste ano.

Se o projecto não continuar, os triciclos ficarão na veloteca da Bicicultura à disposição de escolas, pais e promotores de actividades infantis que os queiram alugar para transportar crianças dentro ou fora do horário escolar.