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Temos um problema endémico de velocidade

Crónica.

Estamos a muitos anos do grau de civilidade ciclística e motora de Amesterdão, mas para diminuirmos essa distância, alguma coisa tem de ser feita, para além da instalação de radares.

Fotografia LPP

Temos um problema endémico de velocidade. Onde quer que eu esteja, lugar, aldeia, vila, cidade, estrada nacional ou auto-estrada, se não olhar para o velocímetro e me limitar a acompanhar a velocidade de quem me rodeia, estarei (amplamente) em excesso de velocidade. Independentemente de ir de carro ou de mota.

Eu já fui das velocidades, é um facto. Mas foi noutra altura da minha vida. Neste momento, já aprecio e valorizo o passeio, em vez do tempo que demoro a chegar ao destino, mesmo que seja um passeio para o sítio do costume.

No fundo, decidi abrandar. E foi quando decidi abrandar que me apercebi da existência deste problema. Anda toda a gente depressa demais. E reclamam, se uma pessoa for dentro do limite legal, mesmo que seja ali mesmo em cima do limite máximo. Todas as semanas tenho vários exemplos disto, porque é com frequência que passo nos viadutos de Pedrouços, quer para um lado, quer para o outro. O limite é de 20km/h (já lá vamos aos limites absurdos, idiotas ou, pelo menos, de motivação difícil de compreender e sem fundamentação pública). Eu não cumpro este limite, confesso, mas mesmo que eu faça os viadutos ao dobro do máximo permitido por lei (portanto, 40km/h, que já dá uma multa muito simpática e remoção de pontos da carta de condução), dizia eu, se fizer os viadutos ao dobro da velocidade máxima permitida tenho, mesmo assim, sempre, alguém a encostar-se à minha traseira, e, não raramente, a fazer luzes e até a apitar para eu acelerar.

Ora… quando se chegam à minha traseira e eu vou de carro, o problema é relativamente fácil de resolver, não é? Porque dá-se um cheirinho de travão, até com o pé esquerdo, só para acender a luz, e eles percebem a mensagem. Reclamam, espumam, mas desencostam-se da minha traseira. 

Já quando vou de mota, a história é diferente, não é? Eles encostam-se à minha traseira e quem tem traseira, tem medo 🙂

Irritam-me muito, estes. O que faço normalmente é manter a minha velocidade, deixá-los ultrapassar assim que acaba o viaduto, e lá vão eles, cheios de pressa a acelerar até ao semáforo, momento em que os apanho.

Se me irritaram muito, meto-lhes a mota à frente, desço o descanso, desligo e vou lá falar com eles. Se não me irritaram muito, apenas faço as coisas muito lentamente. E depois quando me tentam ultrapassar, furibundos, deixo-os a ver a minha traseira ao longe. Não me põem mais a vista em cima.

Mas irrita, sentir-me em perigo, porque esta malta não só não respeita os limites de velocidade, como não respeita os limites da distância que se deve guardar para o veículo da frente. Tenho de retomar a minha ideia da pistola de paintball.

Mas retomando o tema… temos um problema endémico de excesso de velocidade. Basta olhar para as reações à instalação de novos radares. Tudo muito furioso e a gritar “caça à multa”. Epá, andem dentro dos limites e já não são multados. E se não concordam com os limites, vão atrás e descubram qual é o processo para registar uma reclamação fundamentada e justificada.

Porque o pessoal respeita os radares… ali na Avenida de Ceuta é um mimo, vai tudo ali na casa dos 100, até chegarem perto do radar, passa para 50 (muitas vezes com travagem brusca) e depois, quando chega à distância em que acham que já estão a salvo (aquela distância do “já deve dar”), volta tudo aos 100 e mais.

Não ajuda que muitos limites sejam absurdos. Ali no fim da 2ª circular, há um momento em que a velocidade passa dos 80 para os 60 e logo a seguir para os 50. Até hoje não percebi a razão de ser da velocidade ser 50. Vai ali tudo a 50, porque há radar, a olhar uns para os outros com ar de “não me lixem, porra, aqui é seguro ir mais depressa”.

Eu sou muito a favor da descida da velocidade máxima permitida em muitos sítios das cidades, de 50 para 30. E sou a favor disto há relativamente pouco tempo. Desde que andei de bicicleta em Amesterdão.

O puto vive em Amesterdão. Quando foi para lá, disse-me logo que só ia andar de bicicleta (já era o que fazia por cá), e eu fiquei com medo, claro. Porque sou mãe e, por isso, o medo é condição básica, mas também porque ando no trânsito, aqui, de mota (mesmo que seja uma mota um bocadinho maior do que as scooters) e sei o perigo que é. 

E depois andei de bicicleta lá, e descansei. Um bocadinho, pronto. Porque os carros são menos. E porque andam mais devagar. E porque respeitam os ciclistas. Aliás, tive mais problemas com ciclistas do que com carros (andar de bicicleta não é a minha cena). 

Estamos a muitos anos do grau de civilidade ciclística e motora de Amesterdão, mas para diminuirmos essa distância, alguma coisa tem de ser feita, para além da instalação de radares.

Não serve para nada diminuir a velocidade máxima permitida, se ninguém respeita os limites.

Não sei como é que isto se resolve. Melhorar a formação das pessoas, quando tiram a carta? Teriam de começar pelos instrutores. Sensibilizar as pessoas para a empatia? Pensar no outro? Aprender a não fazer razias. Aprender a diminuir a velocidade em contextos onde esta represente um perigo para os outros (motas, bicicletas, trotinetas, peões). 

Mas como é que se ensina isto, se depressa e com pressa é o default de toda a gente?


Artigo originalmente publicado no blogue Jonasnuts.

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