Os lugares de estacionamento podem ter outros usos. O que são parklets?

Fotografia de Mário Rui André/Lisboa Para Pessoas

A pandemia tem levado ao aumento das esplanadas em Lisboa. Isentos de taxas pelo menos até final deste ano e com apoios ao nível do licenciamento, vários restaurantes têm optado por expandir ou criar esplanadas à porta, muitas vezes à custa de espaço pedonal. Com o desconfinamento a permitir numa primeira fase apenas a rentabilização dos espaços exteriores e com as regras de distanciamento entre mesas, os estabelecimentos acabaram por ocupar mais passeio do que aquele que habitualmente ocupariam.

Ao caminhar pela Avenida Duque d’Ávila, onde sempre encontrámos esplanadas, verifica-se que algumas destas chegam agora praticamente à ciclovia, empurrando os peões para esta via reservada a bicicletas. Noutras partes da cidade onde antes não existia uma “cultura de esplanadas”, estas têm vindo a surgir em passeios já pouco largos, num “salve-se quem puder” entre proprietários que procuram recuperar os seus negócios, clientes desejosos de sair de casa e peões que encontram novos obstáculos à sua deslocação.

Mas nem tudo são más notícias. Desde o início da pandemia, vários lugares de estacionamento têm sido trocados por espaços de esplanada, evitando-se a obstrução do limitado espaço de passeio. Aquilo que algumas pessoas vêem como um “mais roubo de lugares aos moradores”, outras olham como uma forma de colocar ao serviço do público o espaço que alguém usaria para parquear a sua viatura privada. Já Ana Pereira, co-fundadora da cooperativa Bicicultura, imagina os lugares de estacionamento para além da sua utilidade ao serviço da restauração e, por isso, está a lançar o projecto sParqs.

A sParqs é uma iniciativa sem fins lucrativos que pretende promover a criação de parklets na cidade de Lisboa. Parklets são lugares de estacionamento reconvertidos em espaço público ao serviço das pessoas. “As esplanadas são uma coisa positiva directamente para os negócios que as usam, mas também para a envolvência da rua, dado que há mais pessoa na rua e isso cria uma segurança objectiva e subjectiva”, explica Ana Pereira ao Lisboa Para Pessoas. “Mas são espaços privados, que não podem ser usados como se usa um parque público, por exemplo. Pertencem sobretudo por cafés e restaurantes, servindo para comer e beber, e só estão disponíveis nas horas de expediente desses estabelecimentos.”

A ideia subjacente aos parklets é a de micro-espaços de encontro e fruição, dos quais os negócios locais (não necessariamente da área da restauração) podem beneficiar e que ao mesmo tempo são espaços públicos, estando abertos a qualquer hora do dia e acessíveis a qualquer pessoa – mesmo que não esteja a consumir. Com o lema “estacionar pessoas e não apenas carros”, a sParqs quer envolver os comerciantes e a população em geral na disseminação de parklets pela cidade de Lisboa.

Do lado da sParqs fica o desenho dos parklets à medida de cada negócio local, a ajuda no seu licenciamento junto da autarquia e a montagem do resultado no local. No final, todos os parklets desenvolvidos pela sParqs podem fazer parte de uma rede mapeada online, permitindo às pessoas descobrir os parklets que existem espalhados pela cidade e aproveitar o comércio local. A Bicicultura, através da sua sub-marca sParqs, pode inclusive dinamizar eventos culturais e outras actividades que unam os diferentes parklets e os diferentes negócios, sejam eles cafés, livrarias ou outros.

Por agora, e graças a um financiamento por via do Fundo Ambiental e a uma parceria com a fabricante de mobiliário urbano Veco Urban Design, estão previstos sete parklets: dois já instalados na envolvente do Mercado de Arroios, quatro serão colocados em Campolide (dois na Avenida Columbano Bordalo Pinheiro e dois na Rua General Taborda), e um irá para o Beato em frente ao espaço de cowork NOW, que é a sede da Bicicultura. Estes primeiros sete parklets servem de montra para o que a sParqs pretende criar daqui para a frente.

A tendência dos parklets tem surgido em cidades como São Francisco, São Paulo e Viena, que criaram programas específicos para permitir a reconversão de lugares de estacionamentos em zonas de descanso, estadia e encontro nas ruas – tornando-as mais agradáveis a quem se desloca a pé e de bicicleta, promovendo a boa vizinhança, melhorando a segurança da rua e proporcionando acalmia de tráfego automóvel, expandindo a área disponível para árvores, flores e arbustos, e trazendo valor económico para os negócios locais envolventes.

Ana Pereira ainda não sabe se os resultados positivos (incluindo para comerciantes) que se têm verificado lá fora vão verificar-se também em Lisboa, mas está confiante que sim, acreditando que a criação de parklets pode ajudar na recuperação económica dos negócios locais e, em simultâneo, promover uma transição modal do carro para o andar a pé, de bicicleta e de transportes públicos, e devolvendo pequenos retângulos de espaço público às pessoas. “Uma parte importante de promover uma transição modal do carro para outros modos é reduzir o estacionamento”, refere. “Queremos reduzir o estacionamento mas não deixar o espaço sem nada. Queremos tirar uma coisa e deixar lá algo melhor para toda a gente, não só para os donos dos carros que lá estacionam”.

Ana entende a frustração das pessoas que vêem pequenos cantinhos ou passeios amplos onde se habituaram a estacionar carros a serem somente bloqueados com pilaretes. “Muitas vezes fica lá um grande espaço vazio, só com calçada. É fácil as pessoas sentirem que lhes tiraram uma coisa mas não ganharam algo. É preciso tirar mas colocar lá o que está em falta”, como árvores, flores, arbustos, bancos, mesas e outro mobiliário urbano. “Os parklets podem ser uma melhor medida do que simplesmente impedir o estacionamento.”

A recepção dos parklets no Mercado de Arroios terá sido positiva, especialmente pelos lojistas mais jovens, segundo um inquérito realizado oralmente no local e mencionado por Ana ao Lisboa Para Pessoas. Os comerciantes que queiram a ajuda da sParqs podem entrar em contacto com a equipa do projecto pelo e-mail parklets@bicicultura.org ou pelo site.