Seguimos um dos comboios de bicicletas. A pedalar até à escola

Fotografia de Mário Rui André/Lisboa Para Pessoas

Gonçalo Peres começa sozinho, são 7h40, na extremidade sul da Alameda dos Oceanos, no Parque das Nações. Pelo caminho sabe que vai apanhar pelo menos 12 crianças – foram as que se inscreveram no comboio daquele dia, através de um grupo de WhatsApp onde mães e pais combinam cada ida. Mas Gonçalo nunca sabe se surge uma adição de última hora ou algum encarregado de educação que também queira apanhar a boleia do comboio. Sempre de olho no grupo de WhatsApp, vai seguindo caminho pela Alameda dos Oceanos, o trajecto mais directo, sempre em ciclovia.

Gonçalo Peres é um dos monitores que ajudam a manter o Comboio de Bicicletas no Colégio Pedro Arrupe, mesmo não tendo filhos lá. O comboio tem partida garantida todas as terças-feiras. Esta semana excepcionalmente, o outro comboio que também lidera às sextas-feiras, para a EB Parque das Nações, partiu com o João Bernardino do extremo norte do bairro. Os dois comboios cruzaram-se a meio. O encontro deu-se já na parte norte da Alameda dos Oceanos: Gonçalo seguiu numa direcção, João na outra. Atrás de cada um, várias crianças.

João é uma espécie de “pai” desta ideia. O primeiro comboio, na altura com o nome CicloExpresso do Oriente, partiu em 2015, inspirando uma iniciativa semelhante em Aveiro. Mas no ano passado a Câmara de Lisboa decidiu apadrinhar esta ideia e escalá-la na cidade. Mais de uma centena de alunos vai, pelo menos uma vez por semana, para a escola de bicicleta e há comboios já em 10 agrupamentos.

A periodicidade dos comboios não é diária porque a sua operacionalização depende dos recursos humanos disponíveis. A Câmara de Lisboa estabeleceu um contrato com a cooperativa Bicicultura, entidade dedicada à promoção da bicicleta, para assegurar monitores para os comboios e, mais recentemente, começou a prestar formação a alguns pais e funcionários de Juntas de Freguesia para acompanhar o crescimento dos comboios, das linhas em que se desdobram e das crianças transportadas.

Fotografia de Mário Rui André/Lisboa Para Pessoas

Voltando ao comboio do Colégio Pedro Arupe. À medida que Gonçalo seguia no percurso, mais crianças se iam juntando. Os pais deixavam aos filhos como quem os vai levar ao autocarro; alguns decidiram ir com eles, na sua bicicleta própria ou levando-os numa cadeirinha atrás. Houve duas crianças que apanharam o comboio pela primeira vez. Gonçalo explicou-lhes logo as regras, que são simples: seguir em fila na estrada e ciclovias bidirecionais, não ultrapassar o primeiro monitor do comboio que circula a par ou à frente das crianças, nos cruzamentos seguir a indicação dos monitores, respeitar os peões nas passadeiras e divertirem-se.

À chegada a qualquer intersecção, como um cruzamento ou uma rotunda, há sempre lembretes para os pequenos redobrarem a atenção; Gonçalo seguia à frente para abrir caminho e as crianças formavam fila indiana; atrás delas, um outro voluntário a garantir que ninguém se perdia. A regra é um monitor por cada quatro crianças: a auxiliar Gonçalo estava Tiago, da Junta de Freguesia do Parque das Nações, que costuma acompanhar aquela iniciativa. Os dois contavam com o apoio dos demais pais e mães que também iam apanhar o comboio.

À chegada ao Colégio Pedro Arupe, o cenário era desolador: carros e SUVs a formar fila, enquanto tentavam entrar no parque de estacionamento interior daquela escola para deixar os filhos. Cada automóvel tinha geralmente dois passageiros. O trânsito ali gerado, e que um funcionário do colégio tentava coordenar, ia atrasando vários autocarros. Algumas famílias mais impacientes parqueavam num pequeno largo pedonal. As crianças que entravam a pé, que chegavam de bicicleta ou as que já estavam no colégio, são obrigadas a conviver com a poluição que ali se gera, para os narizes sensíveis e ainda em desenvolvimento.

Mesmo assim, nem tudo eram más notícias. A estação GIRA com uma dezena de docas mesmo à frente do colégio em poucos minutos ficou preenchida e vários alunos, especialmente mais velhos, chegavam de bicicleta própria. No colégio há um amplo parque de estacionamento para quem escolhe pedalar. Contavam-se ali várias bicicletas parqueadas, algumas de adultos, talvez algum professor ou funcionário.

O regresso a casa é mais complicado. Os alunos não têm horários de saída coincidentes, mas tanto Gonçalo como Tiago da Junta de Freguesia dizem que estão a ser estudadas formas de solucionar essa necessidade. Por agora, os regressos são feitos de forma informal pelas crianças, pais, mães que formem grupos adequados aos seus horários.

Além dos comboios do Colégio Pedro Arupe e da EB Parque das Nações, há mais sete em Lisboa, a maioria são ali na zona, entre o Parque das Nações e os Olivais. Há um comboio em Telheiras, um no Restelo, outro no Areeiro e um em Arroios. E há mais crianças a aderir a cada comboio, porque os receios das mães e dos pais que possam existir vão desaparecendo. Gonçalo e Tiago estão convictos de que o sucesso destes Comboios de Bicicletas depende muito do passa a palavra e também da massa crítica que cada comboio representa. Afinal, quanto maior for o grupo de alunos e alunas a circular nas ciclovias e a chegar à escola de bicicleta, maior poderá ser o impacto que isso terá nas crianças que diariamente vêem a cidade pelo vidro do carro e respiram o ar condicionado, e nas suas mães e pais.

Artigo actualizado às 11h00 de 19/05/2021 e às 16h00 de 28/05/2021 com algumas correcções.