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Fechar ruas ao trânsito e abri-las às crianças. Na Penha quer fazer-se da excepção um hábito

Um troço da Rua da Penha de França foi encerrado ao trânsito automóvel e devolvido às crianças. O resultado foi um dia inteiro de sorrisos e de brincadeiras, das quais até os pais e mães quiseram fazer parte.

Fotografia de Mário Rui André/Lisboa Para Pessoas

Passam das quatro da tarde e vários adultos acumulam-se ao pé do Mercado de Sapadores, num troço da Rua da Penha de França fechado ao trânsito e aberto à brincadeira. Vieram acompanhar as suas crianças mas parece que algo os está a conter. Será a vergonha de se exporem à brincadeira? Será o medo de já não saberem brincar? Não sabemos. Certo é que alguns deles ficam contagiados pelos mais pequenos e misturam-se nos seus divertimentos. Outros usam o telefone para registar o momento – afinal, não é todos os dias que uma rua do bairro se fecha ao trânsito para permitir às crianças saírem em segurança para brincar.

No passado sábado, 2 de Outubro, uma parte da Rua da Penha de França foi transformada numa “Playstreet”, isto é, numa rua para brincar. O ruído dos motores dos automóveis foi trocado pelo som dos carrinhos de rolamentos a descer pelo asfalto. Havia cordas para saltar, puxar ou criar qualquer coisa. Havia pneus usados e grades de bebida para serem usados naquilo que a imaginação permitisse. Havia panos grandes, giz, pedaços aleatórios de madeira, bolas e blocos que poderiam formar um puzzle ou outra coisa qualquer. “Aqui não temos actividades para as crianças, temos materiais soltos para elas explorarem à vontade”, explica-nos Liliana Madureira, coordenadora do projecto Brincapé, que integra as “Playstreets”.

O Brincapé auto-descreve-se como um “consórcio do brincar” e é um projecto que resulta do trabalho colaborativo entre três associações – a APSI – Associação para a Promoção da Segurança Infantil, a Ludotempo e a 1 2 3 Macaquinho do Xinês. O Brincapé arrancou entre 2018 e 2019 com o apoio da Câmara de Lisboa através do programa BIP ZIP e, desde então, tem vindo a promover diversas actividades de promoção da brincadeira no espaço público, através do encerramento temporário de troços de ruas ao trânsito para criar as chamadas “Playstreets” ou “Schoolstreets” (o mesmo conceito mas aplicado às imediações escolares), da criação de materiais didáticos como a “Rotas do Brincar” ou da dinamização de grupos comunitários de pais e mães que, pontualmente, neste ou naquele jardim do seu bairro, se podem encontrar com os seus mais pequenos para em conjunto brincarem e conviverem.

A Rua da Penha de França tem sido já uma constante no roteiro de actividades do Brincapé, tendo sido convertida durante vários fins-de-semana em “Playstreet” no âmbito do programa municipal A Rua É Sua, que durante a pandemia encerrou algumas ruas ao trânsito para aumentar o espaço pedonal e responder à procura por esplanadas. O Brincapé tudo fará para que a excepção se torne um hábito e para que, por exemplo, no último sábado de cada mês seja possível fechar esta ou outra rua ao trânsito, devolvendo-a às crianças.

Liliana diz que as “Playstreets” são também “uma forma de protesto” para mostrar que o espaço público das cidades deixou de pertencer às crianças quando se deixou o automóvel tomar conta das ruas. Com estes encerramentos, o Brincapé procura promover a brincadeira como uma forma inata de se descobrir o mundo. “Instrumentalizámos o brincar”, explica Liliana, dando como exemplos as brincadeiras pedagógicas em que se procura “aproveitar a energia do descobrir e da brincadeira para ensinar às crianças o que é importante”.

Mas esta instrumentalização acontece também com a incompatilização entre a escola e o brincar: “Brincar não é algo que se permite enquanto se está na escola. Ou se está na escola, ou se está a brincar.” Actualmente, diz Liliana, as “crianças só podem brincar em determinada altura e em determinado espaço”, por exemplo, ao fim-de-semana num jardim ao qual não conseguem chegar sozinhas. É para trazer de novo a brincadeira para a rua, para as ruas de bairro onde os mais novos vivem, que servem as “Playstreets”. Com estes encerramentos o Brincapé procura “incomodar um bocadinho mas não demasiado para hostilizar”. O mais importante é, mesmo, gerar brincadeiras. Para os adultos, estes eventos podem ser espaços de encontro e convívio. Liliana dá o exemplo de uma “Schoolstreet” à porta de uma escola, em que encerrando a rua no fim de um dia de aulas e deixando os mais pequenos a brincar, os pais e mães ficam forçados a falar uns com os outros. “É diferente de ir um pai buscar o filho às 17h, depois outro ir buscá-lo às 17h05. Não se cruzam. Aqui são levados a falar uns com os outros”

As “Playstreets” e “Schoolstreets” obrigam, assim, os mais velhos a parar no espaço e a viver esse espaço. O Brincapé começou a levar a iniciativa “Schoolstreets” a duas escolas básicas no ano lectivo passado, encerrando durante duas horas, nas sextas-feiras de Maio e de Junho, o espaço em redor da EB1 Santa Clara e da EBI Rosa Lobato Faria, respectivamente. Na Penha de França, Liliana sente que faz falta alguma regularidade para que os pais e mães saibam sempre quando existe um evento “Playstreet” e possam preparar-se de antemão para ir. “As pessoas vão estando à espera que nós regressemos aqui à rua. Perguntam-nos quando é que voltamos.” Liliana diz ter a Junta de Freguesia da Penha de França sensibilizada para a iniciativa e do lado do Brincapé; aguarda agora que o novo executivo camarário também esteja para que as “Playstreets” possam ser mais e mais regulares.

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