Câmara de Lisboa revê projecto de rotunda para a Praça do Chile para incorporar ciclovia

Quando a requalificação da Praça do Chile foi pensada, não estava prevista uma ciclovia na Almirante Reis. O executivo de Medina encomendou uma revisão do projecto, que envolve uma rotunda, para passar a integrar a bicicleta. Moedas poderá pegar no trabalho desenvolvido e lançar uma mega intervenção de fundo no eixo que se tornou o mais polémico da cidade.

Fotografia de Mário Rui André/Lisboa Para Pessoas

Uma vez concluídas as obras de expansão da estação de Metro de Arroios, a Praça do Chile ficou livre para a muito aguardada reabilitação, prevista no programa municipal Uma Praça Em Cada Bairro. Mas o projecto original de 2015 encontra-se desactualizado, uma vez que a Avenida Almirante Reis passou a contar com uma ciclovia em toda a sua extensão.

A revisão do projecto foi solicitada, por ajuste directo de 19 700 euros e com um prazo de execução de 15 dias, à mesma empresa que tinha desenhado originalmente a rotunda para a Praça do Chile, por 60 mil euros, em 2015 – o Paulo Pedrosa, Gabinete de Estudos e Projectos Lda. Este foi o mesmo gabinete que pensou o novo Largo do Leão, próximo da Praça do Chile e requalificado em 2017. O Largo do Leão e a Praça do Chile foram projectados em conjunto, mas esta última ficou a aguardar a conclusão das “obras de Santa Engrácia” do Metro de Arroios. O novo contrato para a Praça do Chile só agora foi publicado no portal Base, apesar de o trabalho de revisão do projecto já ter sido realizado muito tempos antes, segundo apurou o Lisboa Para Pessoas.

Futuro da Praça do Chile será uma rotunda

O projecto reformulado pela empresa Paulo Pedrosa, Gabinete de Estudos e Projectos Lda alterou a rotunda da Praça do Chile para ter duas vias em vez das três inicialmente planeadas, integrando uma ciclovia circular unidirecional com entradas/saídas junto ao separador central, segundo apurou o Lisboa Para Pessoas. O trabalho, apesar de ter contrato assinado a 22 de Setembro segundo o portal Base, foi executado ainda antes do Verão. Quando a nova Praça do Chile foi pensada em 2015, a Câmara não previa incluir uma ciclovia em toda a extensão da Avenida Almirante Reis; uma das primeiras intenções passava por realizá-la apenas entre o quarteirão do Banco de Portugal e a Praça do Martim Moniz. Uma ciclovia em toda a extensão da Almirante Reis foi apresentado em 2020 no programa de intervenções pop-up da cidade de Lisboa. Na altura, a ideia era fazê-la até ao Areeiro, mas a autarquia acabou por alterar os planos e construir a infraestrutura só até à Alameda.

Imagem via CML

De acordo com o programa Uma Praça Em Cada Bairro, para a Praça do Chile estava pensada desde 2015 uma rotunda com três vias de trânsito que permita a redistribuição do trânsito entre a Avenida Almirante Reis, a Rua Morais Soares e a Rua António Pereira Carrilho, que desce do Largo do Leão. Pretende-se que a Praça do Chile seja a “porta de entrada do eixo comercial da Rua Morais Soares, que se pretende revitalizar e requalificar” também. Com a nova rotunda, procura-se o alargamento de passeios e uma melhoria da circulação pedonal “quer na praça, quer na estrutura viária envolvente”. Para o meio da rotunda foi pensada uma área de repuxo de água e uma zona verde. Em redor da rotunda foi planeado um corredor com arbustos, árvores e bancos que promovam a estadia e usufruto da Praça pelas pessoas.

Voltando à Praça do Chile. No programa Uma Praça Em Cada Bairro está referida ainda a intenção de analisar com a Carris “a revitalização da carreira de eléctrico, permitindo a ligação da Parada do Alto de São João ao Largo do Leão, ligando à Praça do Chile estas duas centralidades”. Lê-se também que existe vontade de “aproveitar a intervenção na Praça do Chile para impulsionar a requalificação urbanística da Rua Morais Soares, como espaço indutor da vida comercial de todo o bairro”, com, por exemplo, a “reorganização do estacionamento automóvel na zona, criando mais alternativas nas transversais ao estacionamento actual na Rua Morais Soares, no qual deverão permanecer apenas cargas/descargas e paragens BUS”. O projecto da Praça do Chile no Uma Praça Em Cada Bairro contou com a participação dos cidadãos, através de canais online, e com duas sessões públicas realizadas no Café Império no início de 2015.

Pretende-se com a renovação da Praça do Chile refazer ainda a Rua António Pereira Carrilho, que desce do Largo do Leão. Esta rua passaria a ter duas vias ascendentes e apenas uma descendente, o que permitiria o alargamento do espaço pedonal e das áreas de esplanada. Além da arborização da rua e da reorganização do estacionamento, a via descendente passaria a ser partilhada com um 30+bici, ligando a outras artérias 30+bici pensadas na zona: a Rua Quirino Fonseca (que teria também um contra-fluxo ciclável), a Rua Alves Torgo e a Rua António Pedro, três perpendiculares à António Pereira Carrilho.

No projecto do Largo do Leão, a Rua Visconde de Santarém, que começa na Avenida Rovisco Pais, onde existe ciclovia na continuação da Duque d’Ávila, também aparecia como 30+bici no sentido descendente; no entanto, as marcações no chão não foram concretizadas – apenas foi colocado o limite de 30 km/h no local. As ruas Visconde de Santarém e António Pereira Carrilho são duas artérias com um declive acentuado, mas o 30+bici contínuo no sentido descendente permitiria assinalar um trajecto de desejo para muitos ciclistas que, vindos da Duque d’Ávila ou da Rovisco Pais, podem chegar rapidamente à Avenida Almirante Reis sem ter que fazer o actual desvio pela Praça de Londres e Alameda.

Podes consultar e descarregar os dois projectos – o do Largo do Leão e envolvente (já concretizado), e do Praça do Chile e envolvente (versão pré-ciclovia) – de seguida:

Moedas poderá fazer da renovação da Almirante Reis a sua bandeira de mandato

Quando Carlos Moedas disse e repetiu em campanha que a ciclovia da Almirante Reis “é para acabar”, também disse que aquilo que procurava eram ciclovias bem planeadas e falou de pedir uma auditoria ao LNEC antes de rever todo o plano de expansão da rede ciclável de Lisboa. Madalena Natividade, candidata eleita da coligação Novos Tempos (de Moedas) para a freguesia de Arroios, inscreveu no seu programa a promessa de uma “intervenção de fundo na Avenida Almirante Reis que suporte uma ciclovia bem planeada e melhor executada”.

Por outras palavras, a intenção de Moedas parece ser a mesma que a que Medina tinha, com uma diferença: Medina preferiu colocar uma ciclovia pop-up na Almirante Reis antes de iniciar o debate de uma requalificação a sério de toda aquela artéria. A promessa de lançar esse debate tinha sido dada aquando do anúncio de reformulação da ciclovia pop-up, com o executivo do PS a prever colocar a Avenida Almirante Reis em discussão pública antes do período eleitoral, através um processo semelhante ao desenvolvido com a Praça do Martim Moniz. Mas o debate sobre o futuro da Almirante Reis acabou por não ser lançado.

Ora, Carlos Moedas pode agora juntar a requalificação de fundo de que a Almirante Reis tanto precisa com o processo já em curso para o Martim Moniz, anexar a intervenção da Praça do Chile e suas envolventes, juntar ainda uma requalificação da Rua Morais Soares e associada a Parada Alto de São João (que também está inscrita no Uma Praça Em Cada Bairro com projecto já feito, que incluir um parque de estacionamento automóvel), promovendo assim um mega-operação urbana para a freguesia de Arroios, com um piscar de olho à Penha de França (com a Rua Morais Soares e o Alto de São João) e, quem sabe, com um piscar de olho também ao Areeiro, se arriscar inserir a Praça do Areeiro nesta operação. Moedas poderá também rever os projectos já feitos e pedir novos.

Tudo isto é, por agora, ainda especulação. Certo é que o novo executivo de Moedas herdará de Medina um conjunto de projectos e de trabalhos prévios que, se quiser, poderá ligar uns aos outros para fazer disso a sua grande bandeira política do mandato (à semelhança do que Medina fez com o Eixo Central entre Entrecampos e o Marquês de Pombal), numa freguesia que o PSD/CDS conquistou ao PS e que foi um dos centros de toda a campanha autárquica.

Artigo actualizado a 5/10/2021 com correcções sobre o estado da revisão de projecto da ciclovia e detalhes sobre a nova proposta para a Praça do Chile.