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No Restelo, dois pais preocupados fizeram um pequeno estudo de tráfego e velocidade à porta da escola

João e Andreas verificaram que a maioria dos carros que passa à porta da escola estão apenas a atravessar o bairro, escapando aos eixos principais, e que as velocidades praticadas estão bem acima do limite de 30 km/h.

Fotografia de Lisboa Para Pessoas

João Clemente e Andreas Klaus não estão satisfeitos com a envolvente da escola dos seus filhos, a EB Bairro do Restelo. Tráfego de atravessamento, velocidade excessivas e carros parados em cima dos passeios são os principais problemas que apontam. Mas uma coisa é dizê-lo, outra bem diferente é apresentar com dados concretos. João e Andreas quiseram ir por este segundo caminho.

Os dois pais realizaram um estudo à porta da escola para aferir a segurança rodoviária na envolvente escolar, nomeadamente ao nível da velocidade, e compreender o fluxo de tráfego – isto é, qual é a percentagem de tráfego de “atravessamento” em comparação com tráfego destinado à escola. “Agora não se vê isso porque de tarde as saídas são mais desfasadas, mas de manhã estas ruas à volta da Praça estão cheias de carros. Parece um drive-in, com cada carro a deixar as crianças à porta da escola”, aponta João Clemente.

“Há muitos carros que simplesmente usam esta rua do bairro para escapar à Avenida do Restelo, paralela a esta. É fácil saber: são carros que seguem em frente e que não viram para a escola. Alguns vão com bastante velocidade”, aponta. Se uma parte desses veículos podem ser trânsito local mesmo que não se destine à escola, João está seguro de que a grande maioria está simplesmente a cortar caminho em relação à Avenida do Restelo.

Os dados recolhidos por João Clemente, jurista, e por Andreas Klaus, investigador na área da neurociência e cientista de dados, apontam para 74,8% de tráfego de atravessamento na Rua D. Francisco de Almeida, em frente à escola; apenas 25,2% dos veículos observados em duas tardes se destinavam à escola. Os dois pais verificaram ainda que a maioria dos carros (74,7%) ultrapassou o limite de velocidade de 30 km/h que a sinalização vertical impõe naquela zona residencial e escolar; foi registada uma velocidade máxima de 56,3% no local e uma velocidade média de 34,7 km/h.

João e Andreas fizeram as medições de velocidades com duas câmaras de vídeo devidamente calibradas e duas marcações na estrada em pontos distantes em seis metros. Foram excluídos da análise os carros que estavam abaixo de 6 km/h (por exemplo, a estacionar); os carros que foram obstruídos por um peão a transitar na via também foram excluídos da análise. Já a contagem de viaturas a passar no local foi realizada em separado e em duas tardes diferentes por dois observadores humanos e fez-se a média das contagens para cada dia de análise.

A expectativa de João e Andreas é que este trabalho voluntário possa ser utilizado como ponto de partida para a Câmara de Lisboa melhorar a envolvente da EB1 e JI Bairro do Restelo, como, aliás, tem feito noutras escolas da cidade. O estudo sustenta ainda uma petição online que os dois pais colocaram a circular com mais encarregados de educação e que, à data deste artigo, reúne cerca de 90 assinaturas. No texto, pedem:

  • a implementação de medidas de acalmia do tráfego rodoviário para a Rua D. Francisco de Almeida na zona da escola, como a sobrelevação de passadeiras e a colocação de “almofadas de Berlim”;
  • a marcação de estacionamento na via para retirá-lo dos passeios e com isso reduzir também a largura útil das ruas;
  • a fiscalização periódica das velocidades praticadas pelas autoridades;
  • a criação de um programa de monitorização da poluição à porta da escola (“acredita-se que a divulgação dos níveis e conteúdos da poluição atmosférica que as crianças respiram na escola, poderá mudar os hábitos de mobilidade”, escrevem os peticionários).

Quimera, um projecto de vizinhança que começa na escola e se estende ao bairro

Na petição, pede-se também um projecto de requalificação da Praça de Goa, que se situa mesmo à frente da escola e que é circundada pela já referida Rua D. Francisco de Almeida. É nesta praça que várias crianças, pais e mães do Bairro do Restelo têm vindo a desenvolver laços de vizinhança ao final do dia. Depois das aulas, em vez de serem levados/as logo para casa, os mais pequenos são deixados à vontade no jardim da Praça de Goa. Aí brincam uns com os outros, enquanto que os mais crescidos vão conversando e conhecendo-se também. No fundo, geram-se encontros entre vizinhos.

Fotografia de Lisboa Para Pessoas

João Clemente, uma das forças promotoras desses encontros informais na Praça, diz-nos que dali já nasceram laços de amizade e confiança a vários níveis. “Tenho medo que tudo isto acabe quando os nossos filhos saírem desta escola”, desabafa. Por isso, João e os outros pais e mães que se reúnem habitualmente na Praça de Goa gostariam de deixar ali um marco físico. Na petição, pedem uma requalificação daquele espaço ajardinado, desenhado pelo arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, com o envolvimento da comunidade e em especial das crianças; de imediato, gostariam de ter estruturas onde os mais pequenos pudessem brincar e uma pequena casa onde fosse possível guardar alguns brinquedos comunitários, materiais dos comboios de bicicletas e ferramentas da cicloficina que costumam promover. João conta-nos que já chegaram a ter uns pneus velhos e uns materiais de madeira presos a uma árvore que permitiam às crianças puxar pela imaginação e inventar novas formas de brincadeira. Só que desapareceram.

Do lado da Junta de Freguesia de Belém não têm sentido apoio na dinamização deste projecto de brincadeira e vizinhança; e do lado da EB Bairro do Restelo apontam também dificuldades no relacionamento com a direcção. A directora da escola terá demorado a autorizar o estacionamento de bicicletas no interior do estabelecimento – mesmo com um parque próprio instalado pela autarquia –, obrigando ao envolvimento da Câmara Municipal no sentido de resolver o litígio. É por isso que pedem também instalações sanitárias na Praça, de forma a não criar novas fricções com a escola no uso das suas casas-de-banho.

“Temo que se não se materializar um espaço de apoio, se não anexarmos a ideia a um espaço físico, a coisa pode esfumar-se, até porque assenta numa relação com uma Escola Básica e os putos vão acabar por mudar de escola, e os pais vão com eles”, atira João. “Sendo que uma estrutura física é essencial para perpetuar e o espírito da coisa e o passar às outras gerações de pais que vierem a seguir.” O jurista, pai de Salvador e de mais dois, não tem dúvidas de que “esta dinâmica não é muito normal em Lisboa, muito menos em Belém, onde as relações de comunidade se resumem muitas vezes ao ‘bom dia’ e ‘boa tarde’ e pouco mais que isso”. “E este fenómeno que está a acontecer ali naquele jardim em frente à escola, está a funcionar como o centro aglutinador da comunidade escolar. O projecto Quimera assenta, então, nesta relação de comunidade, centrada nas crianças, e que tem um potencial ainda por explorar.”

João Clemente conta-nos que, apesar de no programa municipal de Comboios de Bicicletas, a EB1 e JI Bairro do Restelo realizar apenas um comboio semanal, há efectivamente comboios todos os dias organizados informalmente pelos pais e mães do bairro. E também já se tem realizado um comboio pedonal. “Percebemos que algumas crianças não aderiam de bicicleta, mas a pé já vinham.” O Quimera é o nome de todo o projecto de vizinhança que une as brincadeiras e conversas ao final do dia, os comboios para a escola, uma cicloficina mensal – todos os meses pais, mães e crianças se juntam para se interajudarem em toda a mecânica e reparação de bicicletas – e todas as demais actividades que eventualmente nascerem entre os vizinhos, como piqueniques ao fim-de-semana.

“As crianças é que são o cimento do grupo, foram as crianças que estabeleceram, primeiro as relações entre elas, nas brincadeiras nos jardins em frente à escola, e os pais foram de arrasto”, explica João. “Os pais começaram a ficar no jardim depois da escola, para as crianças brincarem e não foi preciso muito para que cada vez mais crianças começassem a pedir aos pais para ficarem também, e muito rapidamente, um lugar que praticamente estava sempre às moscas, começou a estar cheio de vida.” Para João Clemente, o ideal seria “passar as actividades do jardim à porta da escola, para dentro da escola, tal como refere Carlos Moreno, quando diz que a capital da cidade dos 15 minutos seria a escola”.

Salvador, o filho mais novo de João, puxou-nos para a sua brincadeira e disse-nos ainda para escrevermos nesta reportagem que quer “mais árvores para brincar”, “menos carros” e “mais bicicletas”. Pegou na nossa máquina fotográfica e fez algumas imagens com ela; para fecharmos este artigos, partilhamos alguns dos seus disparos.