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Arrábida Sem Carros: em Setúbal, os automóveis nem sempre vão à praia

O programa Arrábida Sem Carros está em prática pelo quinto ano consecutivo. Criticado no início, tornou-se num exemplo único a nível nacional e num caso de sucesso. Agora já parece que ninguém quer a Arrábida como era dantes e há quem peça que a iniciativa seja alargada no tempo e no espaço.

O programa Arrábida Sem Carros realiza-se desde 2018 (fotografia de Lisboa Para Pessoas)

Conta quem frequentava as praias da Arrábida antes de 2018 que as filas de carros na Serra eram extensas em determinadas horas do dia, dificultando o acesso de eventuais viaturas de emergência, e que o estacionamento informal à beira da estrada impedia fluidez na circulação de veículos. O programa Arrábida Sem Carros, implementado originalmente nesse ano pela Câmara de Setúbal, veio resolver alguns dos problemas de mobilidade e de segurança verificados durante o Verão na Arrábida, tendo-se tornando, após as críticas iniciais, num exemplo único a nível nacional e num caso de sucesso.

Este é o quinto ano consecutivo em que o Arrábida Sem Carros é implementado. De 10 de Junho a 18 de Setembro, o trânsito automóvel está condicionado em várias partes da Arrábida, o que não significa que toda a Serra esteja fechada aos carros. Na verdade, o trânsito está vedado apenas no acesso a quatro troços na estrada que percorre toda a zona balnear da costa da Arrábida, a partir do centro da cidade de Setúbal e que assume diferentes designações. O corte mais significativo acontece entre as praias da Figueirinha e do Creiro; é possível chegar de carro a cada uma delas e estacionar nos respectivos parques, mas a restrição de circulação entre as duas praias – a meio de toda a estrada costeira – cria um pequeno desincentivo à utilização do automóvel. Ao mesmo tempo, esse corte significa que as praias intermédias dos Galápos, dos Galapinhos, dos Coelhos e da Anixa só podem ser acedidas de transporte público, a pé, de bicicleta ou de táxi/TVDE.

O segundo troço cortado é a estrada que parte da estrada costeira e que se aproxima do mar, dando acesso ao Portinho da Arrábida. Aqui só os residentes do Portinho e de Alpertuche (o nome de uma zona ali próxima) podem aceder. Os outros dois troços cortados são os acessos às praias de Albarquel e do Creiro. Ou seja, é possível chegar a estas praias de carro e estacionar nos respectivos parques, mas não dá para descer com o automóvel até junto à praia, sendo necessário fazer os últimos metros a pé.

À entrada dos troços cortados existem barreiras físicas e/ou apoio da PSP para garantir não só que as restrições são cumpridas, mas também que as excepções estão asseguradas. Além de residentes e comerciantes serem os únicos que podem entrar de carro e estacionar nas zonas condicionadas (onde existem bolsas de estacionamento exclusivas), o acesso também é permitido a motas, táxis e TVDEs, veículos de cargas e descargas, autocarros da Carris Metropolitana que asseguram o transporte até às praias e, claro, aos modos suaves como o pedonal, a bicicleta e as trotinetas. Pessoas com mobilidade condicionada têm acesso garantido às praias que contam com condições de acessibilidade.

Com o estacionamento tarifado nos parques juntos às praias (na do Creiro a tarifa diária é de 4 € e na da Figueirinha entre 0,80 € por uma hora em dia útil e 8 € por dia em fim-de-semana), o transporte público é apresentado como a principal alternativa para quem quer aceder às praias da Arrábida. Este ano, o serviço é operado pela Alsa Todi com a marca Carris Metropolitana, existindo quatro linhas em vez das cinco previstas inicialmente: a 4470 (antiga 727) serve a zona de Azeitão e termina na praia do Creiro; a 4472 (antiga 723) liga a Interface de Transportes de Setúbal (ITS) também à praia do Creiro, com paragens em todas as outras praias; a 4474 parte do centro comercial Alegro, onde existe estacionamento gratuito ao serviço das praias, e vai até à Figueirinha; e a 4471 é uma linha circular que faz a ligação entre a Avenida Luísa Todi e a praia de Albarquel; estava prevista uma linha circular que percorresse todas as praias (a antiga 722) mas por algum motivo não chegou a ser lançada.

As diferentes linhas da Carris Metropolitana que servem as praias funcionam, de um modo geral, entre as 9 e as 20 horas e têm nos meses de maior procura – dependendo da linha – frequências de 15 a 30 minutos. A excepção é para a linha 4470, que apresenta uma partida matinal e outra pela hora do almoço de Brejos de Azeitão, e uma partida pelo almoço e outra ao final do dia de Creiro, procurando servir os hábitos dos banhistas. Todas estas linhas funcionam com o tarifário habitual da Carris Metropolitana e com os passes Navegante; uma só viagem, comprada antecipadamente por zapping, fica a 1,55 €.

Durante a época balnear de 2021, os autocarros da TST (o antigo operador) que serviam as praias terão transportado 182 mil passageiros, segundo dados apresentados pela autarquia setubalense. As carreiras mais procuradas foram as antigas 723 (actual 4472) e 722, com 76,8 mil circulações e 74,4 mil circulações, respectivamente. Apesar da procura da 722, esta carreira não foi recuperada pela Carris Metropolitana. A Câmara de Setúbal estima que os 182 mil passageiros transportados tenham correspondido a menos 61 mil viagens em transporte individual, tendo por base um número médio de ocupantes/viatura de 3 pessoas, e à emissão de menos de 313 toneladas de CO2 para a atmosfera. Quando preparou o Arrábida Sem Carros 2022, em Abril, a autarquia previa um total de 18,5 mil circulações durante a presente época balnear (podes consultar o documento em baixo).

A Serra da Arrábida (fotografia de Lisboa Para Pessoas)

Simultaneamente, a Câmara de Setúbal desenvolveu alguns projectos de melhoria de acessibilidades pedonais nas praias de Albarquel e da Figueirinha, a criação de rampas, a colocação de passadiços no areal ou a instalação de sanitários públicos; ainda assim, houve ideias que ficaram na gaveta, como a criação de uma solução de ligação pedonal entre o extremo poente do Parque Urbano de Albarquel e a respectiva praia; ou de uma ciclovia com uma requalificação urbana da EN379-1, servindo também as praias.

O Arrábida Sem Carros foi sofrendo alterações ao longo dos anos. A estrada de acesso a Creiro passou a ser um troço condicionado, e deixou de haver as ligações vaivém (shuttle) gratuitas que existiam para algumas praias. Já o parque de estacionamento da fábrica de cimento Secil, que costumava oferecer lugares para os veraneantes, encontra-se encerrado durante esta época balnear. Era daqui que partia a carreira 722, ligando as praias da Figueirinha, Galapinhos e Creiro, num percurso circular. Chegou a estar previsto o relançamento desta linha como 4453, com frequências de 30 em 30 minutos.

Com a fixação de operadores privados de táxi em Setúbal nos últimos anos, como a Uber e a Bolt, com opções XL (carrinhas de seis lugares), o Arrábida Sem Carros tornou-se também uma oportunidade para motoristas ao serviço destas aplicações de tecnologia, que conseguirão uma receita extra com a cobrança de tarifas dinâmicas devido à elevada procura. Quem queira ir de carro na mesma, consegue verificar nos painéis da cidade se existem lugares vagos em cada um dos principais parques de estacionamento, informação que também esta disponível numa app móvel chamada Praias Arrábida (somente Android).

Nem tudo é perfeito nesta iniciativa. Apesar de não ser permitido pela sinalização e de a Câmara de Setúbal prometer fiscalização, a verdade é que o estacionamento abusivo mantém-se uma realidade ao longo de algumas partes da estrada balnear, principalmente em bermas; a pressão do estacionamento sente-se também na cidade de Setúbal, onde algumas pessoas deixarão o carro em passeios e noutras zonas inconvenientes, evitando pagar parquímetro e optando pela Praia de Albarquel, próxima da malha urbana. A fiscalização deste estacionamento abusivo não parece existir ou então não é eficaz. Paralelamente, a linha 4472 será das que mais procura terá, a avaliar pelas filas na paragem do ITS ao início do dia ou nas praias ao final do dia; apesar da frequência prometida de 15 em 15 minutos (e que nem sempre se verifica), os autocarros circulam cheios e alguns passageiros têm de esperar pelo próximo (valeria aumentar a frequência?).

Contestado popularmente no início, o programa Arrábida Sem Carros tem-se revelado um sucesso, apesar das suas falhas. Se resolveu o estacionamento impedindo-o num troço amplo entre as praias da Figueirinha e do Creiro, empurrou-o para outras áreas da Arrábida; há agora quem arrisque dizer que a iniciativa deveria ser alargada no tempo, funcionando em todos os fins-de-semana de tempo convidativo à praia, ou mesmo no espaço, com mais troços encerrados, por exemplo, a partir da cidade de Setúbal logo no início da Serra (deixaria, neste caso, de ser possível chegar a Albarquel ou à Figueirinha de carro). Neste momento, as restrições diárias de circulação e estacionamento funcionam entre das 7 e 20 horas, de um modo geral, nos diferentes troços, apenas na época alta, do início de Junho até meados de Setembro, estando previsto que, caso venha a ser necessário (por exemplo, por causa de um prolongamento do tempo quente), o alargamento da medida até ao final desse mês – já aconteceu em anos anteriores.

Segundo a Câmara de Setúbal, o Arrábida Sem Carros está alinhado com os três Planos Locais de Adaptação às Alterações Climáticas (PLAAC) que os municípios de Setúbal, Palmela e Sesimbra estão a desenvolver para a Serra da Arrábida, uma vez que o condicionamento do acesso automóvel particular e o privilegiar dos acessos às praias por via do transporte público colectivo é uma medida importante de adaptação às alterações climáticas. Mas, não esquecer, o programa também surgiu por uma motivação muito prática: resolver o problema que se verificava ao nível da circulação e parqueamento automóvel na Serra, que dificultava a eficiência de serviços essenciais, nomeadamente de prestação de socorro a pessoas. Ao mesmo tempo, a medida procura a salvaguarda do património natural da Serra e permite a prevenção de incêndios rurais e florestais. Todos parecem ganhar com uma Arrábida sem com menos carros e mais segura.

A estrada costeira sem trânsito (fotografias de Lisboa Para Pessoas)