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Ana não tem estacionamento seguro para a sua bicicleta, mas tem uma solução e precisa de ajuda

Desde que se mudou para a Penha de França, Ana deixou de ter um local para guardar a sua bicicleta em segurança. Mas começou a mexer-se para mudar isso.

Ana Matias (fotografia de Lisboa Para Pessoas)

Ana Matias, 32 anos, bióloga marinha, andava a namorar a compra de uma bicicleta eléctrica há já algum tempo quando, a meio de 2021, a EMEL cria uma rede de estacionamentos cobertos e seguros para bicicletas na cidade. A viver na Mouraria, num prédio antigo, não tinha como guardar uma bicicleta em segurança durante a noite, pelo que o lançamento dos BiciParks foi decisivo para Ana abrir finalmente os cordões à bolsa e comprar uma bicicleta eléctrica com os apoios financeiros que, na altura, tanto a Câmara de Lisboa como o Governo disponibilizavam.

Ana tinha um BiciPark a “5 minutos a pé” de casa no Chão do Loureiro e era aí que guardava a sua bicicleta em segurança. Mas, quando em Abril deste ano se mudou para o Alto de São João, na Penha de França, Ana viu-se a braços com uma dificuldade que muitas outras pessoas sentem: e agora, onde é que deixo a minha bicicleta?Ingenuamente, não achei que isto fosse ser um problema”, confessa Ana ao Lisboa Para Pessoas. A jovem bióloga diz-nos que já tentou de tudo: desde deixar a bicicleta no pátio interior do prédio como levá-la para casa. A primeira opção não foi bem acolhida pela vizinhança, preocupada com a perda de circulação na zona comum do prédio, e a segunda hipótese mostrou-se impossível, por Ana viver num terceiro andar, a bicicleta ser pesada e as escadas serem demasiado estreitas.

Também já andou a ver diversas soluções pelo bairro. Falou com garagens que alugam lugares para automóveis e motas, com um espaço de cowork, com uma loja de bicicletas (“mas fechava às 19 horas”) e com uma associação cultural (“disseram-me que não tinham pensado nisso, mas que não estava nos planos”) e com o centro de saúde. E até perguntou na igreja da zona, mas não lhe pareceu que “tivessem muita vontade”. Quanto a garagens, foi confrontada com preços de aluguer elevados, na ordem dos 50 €/mês, que não lhe pareceram adequados a bicicletas.

Ana Matias (fotografia de Lisboa Para Pessoas)

“Depois comecei a mandar e-mails.” Ana Matias tem soluções na manga mas precisa da ajuda dos órgãos decisores da cidade para as implementar. Uma delas é um hangar para bicicletas – uma pequena caixa metálica, fechada, onde podem caber pelo menos seis bicicletas e ocupa no espaço público o espaço equivalente a um lugar de estacionamento automóvel. Algumas cidades adoptam este tipo de infraestruturas em zonas residenciais e interfaces de transporte público, onde as pessoas procuram soluções onde possam deixar as suas bicicletas durante períodos prolongados no tempo, protegidas de condições climatéricas adversas e de possíveis actos de vandalismo. Em Lisboa, existe um hangar deste género junto à estação ferroviária de Entrecampos e em vários terminais fluviais, mas nenhum a servir áreas densamente habitadas como a Penha de França.

Ana conta-nos que já falou com EMEL sobre um eventual BiciPark na Penha de França; a empresa municipal terá respondido que não é possível por não haver nenhum parque subterrâneo da empresa nessa freguesia. Teve uma reunião com a Presidente de Junta de Freguesia da Penha de França, que terá apoiado a sugestão de um hangar e prometido colocá-lo depois da requalificação do Alto de São João para criação de uma nova praça – um projecto que esteve para arrancar em 2021 e que, ainda assim, deverá acontecer num futuro próximo. E tem uma conversa marcada com o Gabinete do Vereador Ângelo Pereira, que tem a pasta da Mobilidade, nesta semana. “Vou dizer-lhe que a Presidente de Penha de França apoiou esta ideia” do hangar para bicicletas.

O hangar para bicicletas instalado em Entrecampos (fotografia de Lisboa Para Pessoas)

A jovem de 32 anos queixa-se de desigualdades entre os bairros de Lisboa no acesso a soluções de mobilidade e revê-lo no estudo recentemente lançado pela Universidade de Coimbra. “Não tenho GIRA, não sou servida por Metro (as estações mais próximas são as de Santa Apolónia e Arroios, ambas a mais de 20 minutos a pé), e os autocarros que tenho são dois. Tentei usar o autocarro uma vez e fiquei uma hora à espera; disse para nunca mais”, relata. “Metade a freguesia da Penha de França não é servida por transporte público, o que obriga as pessoas a usar carro.” Ana diz que ela própria se diz tentada mas é algo que quer mesmo evitar –“Tira-me a paciência andar de carro em Lisboa e a cidade já está saturada de carros”; além disso, “se houver menos um carro na estrada, a vida de quem realmente precisa ou quer andar de carro fica facilitada”.

Dados do inquérito realizado em 2020 às pessoas que beneficiaram nesse ano do programa de apoio à aquisição de bicicletas da Câmara de Lisboa indicam que perto de 40% dos respondentes guardam a bicicleta dentro de casa, perto de 60% numa garagem, arrecadação ou área comum do prédio e menos de 1% deixa na rua. Já num outro inquérito, este sobre a utilização da bicicleta em conjunto com o autocarro, percebeu-se que 50% dos inquiridos valorizam estacionamentos para bicicletas com cacifos e em áreas vigiadas/protegidas.

A Rua Morais Soares é o principal eixo viário a ligar Arroios à Penha de França (fotografia de Lisboa Para Pessoas)

Ana Matias pede seriedade e assertividade aos decisores políticos. “Se querem incentivar os meios de mobilidade suave, então não podem fazer só parte do trabalho. Não podem dar dinheiro para as pessoas comprarem bicicletas e depois não protegerem esse investimento”, entende a jovem, argumentando que um hangar para bicicletas num bairro custaria cerca de seis mil euros, ou seja, menos de 2% do que custaria a nova ciclovia na Almirante Reis. “Não me digam que não há dinheiro. Havia 400 mil euros para mudar a ciclovia pela terceira vez”, diz Ana. “Eu já fiz todo o trabalho de casa. Sei onde poderia ser instalado, aqui mesmo no estacionamento do Alto de São João, e sei quanto custa.” Mas ainda há muito para fazer. Agora a bióloga marinha quer apresentar a ideia ao bairro. Com a ajuda do colectivo Lisboa Possível, colocou online um abaixo-assinado para recolher assinaturas de quem também ache importante um hangar para bicicletas na Penha de França – já contam umas 70 assinaturas. Agora, Ana quer ir bater à porta dos vizinhos e vizinhas, e saber quem são as pessoas do bairro que andam de bicicleta. “Vejo muitas bicicletas presas aos postes. Gostava de saber de quem são. Já deixei bilhetes em algumas dessa bicicletas a apresentar a minha ideia do hangar.”

“Se isto funcionar aqui, outro bairro pode fazer igual.” E a partir da experiência com um hangar na Penha de França, seria possível ter dados concretos para sustentar futuras decisões noutras partes da cidade. Ana está convicta pelo número de bicicletas que vê na freguesia, a circular ou presas a postes, de que um hangar faria diferença para muitas pessoas. “A gente sem ciclovias arranja-se”, mas sem estacionamento protegido e seguro é mais complicado, conta-nos. Actualmente, continua a deixar a sua bicicleta eléctrica no BiciPark do Chão do Loureiro, ao pé da Mouraria onde residia antes. Isso faz com que use a bicicleta menos vezes. “Demoro muito tempo até ao BiciPark, não é eficiente. Só a use se vou fazer um passeio grande ao fim-de-semana. É triste que esteja lá a ganhar pó.”