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Estão dados os primeiros passos para uma rede ciclável metropolitana

Os municípios da Área Metropolitana de Lisboa (AML) vão passar a contar com uma ferramenta que lhes permitirá estudar diferentes cenários e traçados para uma rede ciclável metropolitana. Projecto está a cargo da Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML) e do Instituto Superior Técnico (IST).

Fotografia de Lisboa Para Pessoas

Os 18 municípios da Área Metropolitana de Lisboa (AML) vão contar, no final do ano, uma ferramenta digital que lhes permitirá planear uma rede ciclável que permita aumentar a utilização da quota modal da bicicleta como meio de transporte, promover a adopção de bicicletas eléctricas ou estimular a intermodalidade. O projecto está a ser desenvolvido pela Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML) em conjunto com os investigadores Filipe Moura e Rosa Félix do Instituto Superior Técnico (IST).

Não tendo competências para intervir nos territórios, a TML pretende apenas estruturar um estudo do que poderá ser uma rede ciclável metropolitana, e disponibilizar uma ferramenta de modelação aos municípios para que estes possam realizar o seu planeamento e tomar decisões baseadas em metas concretas. Além do IST e de representantes dos 18 municípios, a TML constituiu um conselho consultivo, com pessoas e entidades ligadas às questões da mobilidade ciclável, do transporte público e da segurança rodoviária. A primeira reunião deste conselho decorreu no dia 29 de Abril, e o Lisboa Para Pessoas foi convidado a assistir.

Nesse encontro, que decorreu por videochamada, foi apresentada em linhas gerais o estudo de uma rede ciclável metropolitana que a TML está a promover, e que conta com a primeira etapa concluída: um relatório que estabelece as bases do projecto e que podes consultar no final deste artigo (também está publicado aqui).

A TML parte para este trabalho com a visão de uma rede ciclável metropolitana que “constitua uma verdadeira alternativa aos modos motorizados nas distâncias mais curtas” e que seja “complementar aos transportes públicos e aos modos motorizados nas distâncias mais longas, através da articulação intermodal com os mesmos”.

A ferramenta de modelação, que o IST está a desenvolver para a TML, irá permitir a cada município da AML avaliar a sua rede ciclável, na expectativa de que possa ser uma rede integrada ao nível metropolitano. Na prática, com essa ferramenta será possível estudar diferentes cenários e perceber qual o melhor, consoante o objectivo que se escolhe:

  1. cumprir as metas definidas na Estratégia Nacional Para A Mobilidade Activa Ciclável (ENMAC) 2020-2030, isto é, 4% das viagens nas cidades serem realizadas em bicicleta nas cidades até 2025 e 10% das viagens até 2030;
  2. estimular a adopção de bicicletas eléctricas, que permitem viagens maiores, ultrapassar declives e tornar a mobilidade ciclável para mais pessoas;
  3. promover a utilização da bicicleta em conjugação com o transporte público (intermobilidade), isto é, que a bicicleta possa servir para o “último quilómetro” entre a estação e o destino final do passageiro.

Por outras palavras, se o intuito for promover as deslocações quotidianas casa-trabalho/escola, poderá fazer mais sentido a ciclovia passar por uma determinada rua, enquanto que para promover a intermodalidade ela poderá ter outro traçado. Em última instância, e independentemente do cenário escolhido, o objectivo será promover a captação de mais utilizadores e a ferramenta permitirá indicar precisamente isso aos decisores políticos: em que rua ou ruas fará mais sentido ter ciclovia para trazer mais pessoas do automóvel para a bicicleta, consoante o cenário escolhido.

Mas como o intuito é estabelecer uma rede, a ferramenta não vai apontar ciclovias soltas, mas as 30, 60, 120, 200… ligações mais prioritárias para cada cenário, numa lógica de rede, numa visão integrada ao nível da AML e em comparação com os cenários actuais. O IST está a chamar à futura ferramenta de BICLA-R e vai está disponível online, quer para os municípios mas também para o público em geral – até porque será desenvolvida em código aberto, com base na ferramenta britânica Propensity To Cycle Tool (PCT).

À semelhança do PCT, o BICLA-R vai permitir num mapa seleccionar um cenário de estudo e visualizar os resultados modelados. O cenário base será com dados dos censos de 2021 e do IMob 2017 (Inquérito à Mobilidade nas Áreas Metropolitanas do Porto e de Lisboa), e depois os outros três cenários os já referidos: metas do ENMAC, bicicletas eléctricas e intermodalidade. Como a ferramenta será disponibilizada em código aberto, qualquer pessoa poderá posteriormente criar interações da mesma com outros cenários.

“Quando oferecemos segurança aos modos activos, o que vemos é que as pessoas aderem. Ou seja, há uma procura latente e temos de satisfazer essa procura latente, em complemento com os restantes modos de transporte”, comentou Filipe Moura, na reunião de 29 de Abril. Com esta ferramenta, “não vamos fazer estimativas de procura”, esclareceu. “Vamos perceber por onde é que uma rede ciclável pode ir, através de modelação e da avaliação das tranferências modais expectáveis, de indicadores socioeconómicos e da redução de emissões que se pode atingir.” Por exemplo, “se entre a freguesia A e B existem 10 viagens de automóvel e queremos que pelo menos 4% dessas viagens passem para a bicicleta, modelamos quais os percursos que terão maior transferência modal”, explicou Rosa Félix, ressalvando que uma rede para promover a adopção de bicicletas eléctricas poderá ser diferente de uma rede para atingir as metas do ENMAC.

Além da informação dos censos e das viagens actualmente realizadas na AML, ao nível de cada freguesia, o BICLA-R vai ter a rede viária (a partir do OpenStreetMaps) e a rede ciclável actualmente existente na área metropolitana, as elevadores do terreno, as interfaces de transportes públicos e ainda dados das paragens, linhas e horários das operadoras de transportes da AML. Um levantamento de toda a rede ciclável foi feito já em Novembro do ano passado – a AML conta com 368 km de infraestrutura, 80% das quais em vias dedicadas, 47% tem função quotidiana e 16% de lazer; a rede prevista é de 1310 km, estando 12% em estudo prévio ou execução.

“Após a identificar da rede prioritária, é preciso avaliar caso a caso, consoante as melhores práticas internacionais e ao nível de cada município, sempre tendo em conta uma rede que sirva todos os utilizadores, a começar pelos mais vulneráveis”, apontou Rosa. “Temos consciência de que nem todos os municípios estão ao mesmo ritmo e para municípios que estejam mais desenvolvidos esta ferramenta pode até ser uma validação do seu trabalho.”

No encontro online, foram apresentados pelo IST dois mapas da AML, que se reproduzem de seguida: um primeiro com as ligações em modos activos (que inclui bicicleta e andar a pé) que são hoje mais realizadas entre dois pontos, em linha recta; e outro com um cenário hipotético de uma rede ciclável caso fosse possível usar a bicicleta e andar a pé em segurança em qualquer infraestrutura viária e se fosse tudo plano.

Quando estiver concluída, a BICLA-R terá de ser fácil de usar por qualquer município ou entidade intermunicipal, até na introdução de bases de dados próprias; as metodologias deverão estar bem documentadas; e a interface deve ser simples para qualquer pessoa conseguir compreendê-la. O grupo de trabalho que a TML criou com os municípios vai estar a acompanhar o desenvolvimento da ferramenta e a testar a sua utilização, fazendo comentários e sugestões, e vai também receber formação para saber utilizá-la; por seu lado, também o conselho consultivo, irá dar os seus contributos e acompanhar o projecto.

A expectativa é que haja um protótipo da ferramenta já entre Maio e Junho, e que a mesma tenha a sua versão final em Novembro, com um workshop aberto.

A TML pretende que este trabalho culmine na elaboração de um Plano Metropolitano Para A Mobilidade Activa Ciclável (PMMAC) para a Área Metropolitana de Lisboa (AML), que possa ser depois uma fonte de fundamentação para a futura revisão do Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (PAMUS), um documento de 2016 que vai para além da bicicleta mas que já se encontra desactualizado. A revisão do PAMUS deverá ser iniciada no próximo semestre.

O projecto conta com um custo total de 56 650 euros (sem IVA), financiado em 35 mil euros pelo Fundo para o Serviço Público de Transportes (FSPT). O BICLA-R e todo este trabalho de estudo da TML deverá ainda permitir aos municípios fundamentar opções na apresentação de candidaturas a fontes de financiamento para este tipo de infraestruturas, ou outras ações relacionadas com as mesmas, sempre em articulação com os municípios.

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