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Ruas Verdes+, o projecto que vai sombrear ruas no Areeiro e Arroios

A Câmara de Lisboa quer criar um corredor pedonal arborizado ao longo das ruas Carlos Mardel e Francisco Sanches, com o intuito de formar um eixo contínuo entre o Parque Urbano do Casal Vistoso e o Jardim do Caracol. Numa primeira fase, serão intervencionados apenas dois quarteirões na Carlos Mardel.

Uma das poucas árvores da Rua Carlos Mardel (fotografia de Lisboa Para Pessoas)

Estabelecer um corredor pedonal arborizado entre a zona de parques urbanos do Areeiro e o Jardim do Caracol da Penha (cuja inauguração está atrasada) é o objectivo da iniciativa Ruas Verdes+. Promovida pela Câmara de Lisboa, divide-se em três grandes acções; a principal consiste na plantação de árvores ao longo da Rua Carlos Mardel.

A proposta da autarquia é plantar árvores num troço da Rua Carlos Mardel, no quarteirão a norte da Alameda, na freguesia do Areeiro, e no quarteirão a sul, antes do Mercado de Arroios, como uma primeira abordagem à arborização nesta zona da cidade. Reconhecendo que se trata de uma “área difícil”, não só por ser uma zona consolidada, mas também por ter “poucos espaços verdes na proximidade” e que “não tem arborização quase nenhuma”, Gisela Costa, arquitecta paisagista na Câmara de Lisboa, explicou, numa sessão de apresentação do projecto no Areeiro, que a ideia é “colocar arvoredo tendo em consciência de que o estacionamento é importante” e que, por isso, será necessário “algum equilíbrio” nesta intervenção, permitindo “criar um alinhamento pedonal com alguma frescura” sem suprimir, de modo significativo, estacionamento.

A proposta de corredor aborizado, composto pelas ruas Carlos Mardel e Francisco Sanches, sendo que será intervencionado apenas um troço da primeira – o quarteirão a norte e a sul da Alameda (fotografia de Lisboa Para Pessoas)
Esquema aéreo da intervenção proposta para a Rua Carlos Mardel (fotografia de Lisboa Para Pessoas)

De acordo com o plano apresentado, o alinhamento arborizado que vai ser criado na Rua Carlos Mardel “a título experimental” consistirá na colocação de 20 árvores, sendo que, para tal, serão retirados apenas oito lugares de estacionamento, três no lado norte, na freguesia do Areeiro, e cinco no lado sul, em Arroios. No caso da freguesia de Arroios, a perda será compensada com a pintura de seis lugares próximos da Carlos Mardel, em coordenação com a Junta; a intervenção de arborização também permitirá criar um parque para bicicletas na Rua Carlos Mardel num pequeno espaço sobrante. A plantação será feita afastada das fachadas dos prédios, e também para salvaguardar neste aspecto “tem de ser uma árvore de porte médio e de folha caduca”, permitindo sombra no Verão e luz no Inverno. “Temos consciência de que uma espécie a colocar aqui não pode ser muito frondosa”, referiu a arquitecta paisagista, sem adiantar as espécies que já pensou colocar no local – a autarquia diz estar aberta a sugestões da população através do e-mail [email protected]. Ao mesmo tempo, será assegurada o devido distanciamento das árvores das casas das pessoas para garantir que os ramos não cobrem as janelas, nem bloqueiam vistas.

Rua Carlos Mardel (fotografia de Lisboa Para Pessoas)

Gisela e a restante equipa técnica da Câmara de Lisboa presente na sessão no Areeiro explicaram que a iniciativa das Ruas Verdes+ pretende ser gradual, para permitir também que a população interiorize gradualmente as vantagens de ruas mais sombreadas, frescas e, em última instância, verdes. Inês Cristóvão, engenheira ambiental, salientou que a estrutura verde tem um papel no arrefecimento da cidade, nos níveis de CO2, na regulação hidrológica, na regulação da qualidade do ar e do ruído, melhora o bem estar social e a saúde pública, serve de suporte à biodiversidade, e é também um factor de valorização económica. “As áreas que estão junto a espaços verdes são mais valorizadas economicamente”, destacou. “E estamos também a falar de benefícios que entram na saúde física e mental das pessoas.”

“As cidades são uma estufa de acumulação e libertação de calor”, detalhou a engenheira ambiental, realçando fenómenos como o das ilhas de calor urbano, em que, a temperaturas altas que se podem fazer sentir, especialmente no Verão, aliadas à impermeabilização dos meios urbanos (Lisboa é 59% impermeável) e à ausência de arborização, o caminhar na rua não só se torna desconfortável como pode ser perigoso do ponto de vista da saúde, em particular para populações mais sensíveis. “Com as alterações climáticas, a tendência é para termos um aumento da temperatura média, precipitação mais intensa e aumento dos fenómenos extremos, como temos verificado nos últimos tempos.”

Reconhecendo o impacto da arborização no ecossistema urbano, a Câmara de Lisboa está a desenvolver a iniciativa Ruas Verdes+, que se enquadra no programa Arrefecer a Cidade, que inclui, entre outras iniciativas, uma intervenção em 15 entroncamentos no Bairro das Colónias, em Arroios, com a plantação de 70 árvores. “Temos o projecto feito, mas é preciso que ele suba nas prioridades de orçamento do município para que seja executado.” O Ruas Verdes+ conta com financiamento europeu através do Conexus, programa que envolve 6,2 milhões de euros de fundos comunitários para vários projectos a concluir até Agosto de 2024. Outro dos projectos financiados no âmbito do Conexus são as duas mini-florestas criadas no Areeiro, nos parques urbanos do Vale da Montanha e do Casal Vistoso.

O Jardim do Caracol da Penha ainda está em obras (fotografia de Lisboa Para Pessoas)

Além da arborização da Rua Carlos Mardel, o projecto Ruas Verdes+ contará com a colocação de vasos em alguns arruamentos do Bairro dos Actores, no Areeiro. Gisela Costa falou numa “intervenção reversível”, cujo objectivo é testar a presença de arvoredo de baixo porte naquele bairro. “Não queremos chegar a este bairro e impor isto. Queremos experimentar e perceber se as pessoas valorizam ou não as árvores. Queremos que elas até nos venham pedir para por mais árvores”, disse a arquitecta, que revelou que os vasos terão 90 cm de largura e um metro de altura e que serão colocados em pontos estratégicos do bairro, sem suprimir lugares de estacionamento. Por exemplo, uma das opções é colocar nos espaços depois das passadeiras, onde não se pode estacionar. Ao contrário das árvores que serão plantadas na Carlos Mardel, estas que serão instaladas em vasos não terão as suas raízes a perfurar o solo, pelo que algumas das suas funções, como a de regulação desse solo, não serão cumpridas. Ainda assim, permitirão captar CO2 da atmosfera, sombrear ruas e também refrescá-las em períodos de maior calor, por exemplo. Ao todo, existem 32 vasos para espalhar pelo bairro.

Simulações dos vasos revertíveis (fotografias de Lisboa Para Pessoas)

Com estes vasos “pop-up” e a com a arborização de um troço da Rua Carlos Mardel, a autarquia quer criar um corredor pedonal que convide as pessoas a circular entre o conjunto de parques urbanos contíguos e próximos do Areeiro (Casal Vistoso, Vale da Montanha, Bela Vista, Vale de Chelas) e o novo Jardim do Caracol da Penha. Para que este corredor verde fique completo, será preciso concluir a arborização da Carlos Mardel, até à Morais Soares, e fazer a mesma intervenção na sua contígua, a Rua Francisco Sanches. Mas esta será uma tarefa para uma eventual próxima intervenção, caso esta corra bem.

A iniciativa Ruas Verdes+ prevê ainda a realização de um workshops de jardinagem, em Maio, abertos à população, e nos quais as pessoas poderão aprender a plantar flores e pequenos arbustos em vasos para colocar nas suas varandas e janelas, tornando também dessa forma as suas ruas mais verdes. “Queremos que usem as fachadas lindíssimas deste bairro para colocar floreiras. Vamos dar vasos em barro às pessoas que participarem nesses workshops”, explicou Inês Cristóvão. Os workshops serão dados pela Escola de Jardinagem da Câmara Municipal e funcionarão também como acções de sensibilização, com o intuito de convidar a população a sintonizar as suas casas com o espaço público.

Todo o corredor que se prevê arborizar futuramente (fotografia de Lisboa Para Pessoas)

A iniciativa Ruas Verdes foi apresentada em duas sessões públicas de participação. A primeira sessão realizou-se no dia 8 de Março num espaço da Junta de Freguesia do Areeiro e não registou adesão; aquilo que era para ter sido uma sessão de participação, transformou-se num momento de diálogo entre técnicos do município e o Presidente da Junta do Areeiro, que, após ter ouvido falar sobre alterações climáticas e problemáticas como as ilhas de calor, reduziu a sua intervenção às questões de estacionamento – um assunto que sabe ser sensível. A sessão em Arroios decorreu uma semana depois, no dia 14, tendo tido alguma (pouca) adesão. Luís Castro, da associação Vizinhos de Arroios, que reúne vários moradores da freguesia, indicou que “há ruas que têm caldeiras vazias, sem árvores, e depois há ruas onde querem meter árvores a toda a força”, referindo-se a uma intenção anterior de arborizar a Rua Francisco Sanchez. Luís disse ter falado com moradores daquela zona e afirma que existiu e existe uma massa crítica contra as árvores. “Nós fomos porta a porta e as pessoas diziam que não queriam.”Sem querer por em causa o trabalho meritório” do projecto Ruas Verdes+, Luís criticou que se esteja a “impor as pessoas uma solução”. “Eu estive em reuniões convosco. Aquilo que me apercebi é que vocês traziam um modelo já fechado e que era para ser feito, e que queriam que as pessoas apenas validassem.”

Por seu lado, Miguel Pinto, da associação Caracol POP, congratulou a iniciativa, salientando que “há muito tempo que [na Caracol POP] temos vindo a discutir entre nós a criação de corredores arborizados a fazer ligação entre ruas, espaços verdes e pontos de interesse na cidade”. E acrescentou que “não podemos em 2023, numa cidade civilizada, andar a discutir árvores numa rua por causa de estacionamento, quando temos aparentemente muitos lugares livres no parque subterrâneo da Alameda. Há um piso fechado naquele parque, que fica a meia dúzia de metros”, denunciou. “O carro é muito útil, mas sempre que ocupa um lugar na rua esse espaço fica cativo daquela pessoa ou família, enquanto que um espaço aberto ou um bocado de calçada pode ser usado por várias pessoas”, referiu o porta-voz da Caracol POP. Carlos Sacramento, morador na freguesia, usou a sessão para propor uma solução de arborização na Rua da Penha de França – o troço que fica ainda na freguesia de Arroios –, que permitiria aumentar o estacionamento automóvel, colocar árvores, alargar os espaços pedonais e criar áreas de lazer.

A Câmara de Lisboa não partilhou com o Lisboa Para Pessoas as apresentações realizadas publicamente no Areeiro e Arroios, apesar de sucessivos contactos. Partilhámos, por isso, neste artigo, fotografias dos slides mostrados nas sessões.