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Como Lisboa está a tentar mudar a mobilidade escolar com os autocarros de bairro

Neste último ano lectivo, perto de uma centena de crianças foi para a escola de autocarro, acompanhada por monitores adultos. O projecto-piloto, intitulado Amarelo, abrangeu escolas nos Olivais e em Benfica, e está agora a ser avaliado para o próximo ano lectivo.

Fotografia LPP

Muitas das gerações mais velhas lembram-se de ir para a escola a pé ou de autocarro quando eram crianças. Esses momentos eram oportunidades de conversa e de estreitamento de laços de amizade. O paradigma da mobilidade alterou-se: hoje, mais de 45% dos alunos do ensino básico e secundário de Lisboa deslocam-se diariamente de carro para ir para a escola. A companhia dos colegas foi substituída pela dos pais, que, por seu lado, têm no levar os filhos à escola chances de passar tempo com eles, de ter pequenos momentos em família.

Dados do mais recente inquérito à mobilidade escolar, que é promovido anualmente pela Câmara de Lisboa, dão conta de que são os alunos de escolas privadas aqueles que mais se deslocam de carro para as aulas (72% versus 34%). O autocarro é o modo preferencial de 17% dos 39 mil estudantes que participaram no inquérito, cerca de metade da população escolar da cidade; olhando só para as escolas públicas, a percentagem sobe para 23%; nas escolas privadas, representa apenas 5,1%. Importa ainda olhar para os serviços próprios de autocarro que os estabelecimentos de ensino oferecem – representam 1,3% do total de deslocações, sendo a percentagem ligeiramente superior no caso dos privados.

A incidência do automóvel vai diminuindo com o aumento do grau de ensino. São os alunos mais velhos que menos vão de carro para a escola e que, tendo já conquistado autonomia ao nível da mobilidade, mais optam pelo transporte público. No ensino secundário, o autocarro representa 30% das idas para a escola, com o automóvel a representar apenas 28%. Por comparação, no 1º ciclo, o automóvel tem 52% e o autocarro apenas 10%.

Lisboa está a tentar inverter estes padrões. A autarquia, em conjunto com a Carris, lançou no ano lectivo que agora terminou um projecto-piloto dirigido ao público do 1º ciclo. Através da oferta já existente de autocarros da Carris, nomeadamente das Carreiras de Bairro, perto de uma centena de alunos do 1º ao 4º ano pôde ir para a escola de autocarro, acompanhado de monitores adultos. O projecto-piloto, intitulado Amarelo, abrangeu nove escolas, quatro das quais na freguesia dos Olivais e cinco na freguesia de Benfica.

Fotografia LPP

Segundo dados das Carris, divulgados em Março, o Amarelo tinha nessa altura 73 alunos inscritos, dos quais cerca de metade utilizavam o serviço diariamente. O maior sucesso do projecto era na freguesia dos Olivais, onde se contabilizaram 48 participantes de três escolas do 1º ciclo: a Paulino Montez, a Viscondessa dos Olivais e a Arco Íris. Nesta freguesia, a Carreira de Bairro 29B serviu de suporte ao projecto. Em Benfica, participaram 25 crianças, de três escolas: a Jorge Barradas, a Parque Silva Porto, a Pedro de Santarém e a Professor José Salvado Sampaio. Aqui, o projecto decorreu na Carreira de Bairro 70B e na linha 724.

Laura e Manuel foram duas das várias crianças que participaram no Amarelo neste ano lectivo e que, diariamente, foram de autocarro para a sua escola, a EB1 Jorge Barradas, em Benfica. À hora marcada, Laura e Manuel estavam na respectiva paragem do 70B à espera do autocarro, acompanhados pelos pais. Dentro do autocarro, seguia uma monitora da Junta de Freguesia de Benfica preparada para apanhar as crianças. De colete amarelo, Carolina está sempre de telemóvel na mão e de olho no grupo de WhatsApp através do qual se faz a comunicação com os encarregados de educação. Se houver um atraso ou um adiamento do autocarro, Carolina avisa os pais e vice-versa – se as crianças se atrasarem e não estiverem na paragem na hora prevista, os pais avisam a monitora que vai abordo (e, quando isso acontece, o autocarro pode esperar um pouco na paragem).

Fotografia LPP

O Amarelo funciona no serviço normal da Carris, pelo que as crianças viajam nos autocarros juntamente com os restantes passageiros dos mesmos. Por isso, por hipótese, os pais poderiam simplesmente deixar os filhos na paragem e estes seguiriam viagem sozinhos; mas o facto de existirem monitores adultos a bordo, de confiança dos pais e das próprias crianças (os monitores já acompanham os alunos nas actividades extra-curriculares nas escolas), é um descanso e uma garantia de segurança. Na véspera de cada circulação, os monitores perguntam no grupo de WhatsApp com os pais que crianças vão de autocarro na manhã seguinte – isto apenas para terem uma organização do percurso e das paragens onde terão de estar mais atentos. O grupo serve para outro tipo de comunicações, como avisar de eventos problemas ou esclarecer dúvidas que possam surgir – o modelo de operação do Amarelo é semelhante ao dos Comboios de Bicicleta, em que também existe uso do WhatsApp.

As viagens de Amarelo podem servir para as crianças falarem e brincarem umas com as outras, como fizeram Laura e Manuel no percurso que acompanhámos, na recta final do ano lectivo. Os monitores também têm um papel activo na dinâmica social das viagens; porque conhecem as crianças e as crianças a eles, acabam por se estabelecer conversas orgânicas, o que torna as idas para a escola mais divertidas.

No dia em que acompanhámos o Amarelo, apenas duas das sete crianças inscritas naquele percurso foram de autocarro. Este projecto de mobilidade escolar não tem ainda uma adesão extraordinária, mas trata-se ainda de um piloto. No entanto, só na EB1 Paulino Montez, nos Olivais, existiam à data de Março 32 crianças inscritas – esta foi a escola com mais participantes em todo o ano lectivo que agora chegou ao fim. A Câmara de Lisboa e a Carris estão agora a analisar a expansão da iniciativa para o ano lectivo 2023/24.

Fotografia LPP

O Amarelo juntou como stakeholders a Direcção Municipal de Mobilidade, responsável pela coordenação geral do projecto, a Carris, que operacionaliza o serviço de transporte, as juntas de freguesia, que fizeram o recrutamento e gestão dos monitores e, consequentemente, toda a articulação com os encarregados de educação dos participantes, e ainda as escolas, que ajudaram na comunicação do serviço junto dos pais. A participação no projecto dependia sempre de uma inscrição na página do projecto no site da Câmara, onde podia ser consultada a lista das escolas aderentes bem como os mapas e horários dos percursos. No momento de inscrição, os pais apenas tinham de indicar a escolha do seu filho e a paragem pretendida, e depois de estar com a criança nesse local pouco antes da hora de passagem do autocarro. As viagens de Amarelo são gratuitas, uma vez que todas as crianças até aos 12 anos têm direito a um passe Navegante Metropolitano gratuito e, a partir dessa idade, são beneficiadas pela medida de transportes gratuitos da cidade de Lisboa.

De acordo com a Carris, as freguesias e escolas seleccionadas tiveram como base justificativa os resultados dos inquéritos realizados pelo município, a cobertura existente pela Carris na área de influência das escolas, e o interesse das escolas e das juntas de freguesia na promoção do transporte público, entre outros factores. Procurou-se, neste primeiro ano lectivo, testar a operacionalização da iniciativa e captar passageiros nas deslocações casa-escola, bem como melhorar os trajectos pedonais entre as paragens e as escolas. A Carris diz que criou uma nova paragem no percurso da 70B para melhorar a acessibilidade à EB1 Parque Silva Porto e que também reforçou o serviço desta carreira em específico; foi também alterada uma paragem no percurso da linha 29B para melhorar a acessibilidade à EB1 Paulino Montez.

O Amarelo resultou de propostas do PCP e do Livre apresentadas na Câmara de Lisboa; a ideia por detrás do projecto é fomentar a utilização do transporte público já existente nas idas para a escola, promovendo a autonomia e confiança das crianças nas suas deslocações e tentando reduzir um pouco o congestionamento automóvel nos acessos à escola.

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