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Linha Violeta alterada depois de moradores do Infantado preferirem o carro ao Metro

O metro de superfície que vai ligar Odivelas e Loures (e que será a futura Linha Violeta do Metro de Lisboa) terá menos um quilómetro e menos duas estações em relação ao que estava previsto. Transporte público ficará à porta da Urbanização do Infantado; moradores recearam perda de estacionamento e de espaço de circulação automóvel.

Fotografia LPP

A futura Linha Violeta do Metro de Lisboa, uma linha de superfície que servirá os concelhos de Odivelas e Loures, não vai entrar no núcleo urbano do Infantado, depois de alguns moradores terem mostrado, através de uma petição online, preocupação com a redução dos lugares de estacionamento e das vias de circulação automóvel que o traçado do metro provocaria. O trajecto que tinha sido apresentado está, assim, a ser encurtado em cerca de um quilómetro e o número de estações previstas também vai ser reduzido de 19 para 17.

A alteração do projecto significa, em poucas palavras, que a Linha Violeta – que formaria um “U” no concelho de Loures, ligando o Hospital Beatriz Ângelo ao Infantado, passando pela estação de metro de Odivelas – vai no lado do Infantado ficar à porta de uma zona densamente povoada, conhecida como Urbanização do Infantado. Neste local, a última estação será a da Várzea de Loures, localizada perto do centro comercial LoureShopping, numa das pontas da urbanização; isso significa que o metro não vai entrar no núcleo urbano propriamente dito, onde seguiria pela Avenida das Descobertas e teria duas estações: a do Infantado e a da Quinta de São Roque, já periferia norte da urbanização.

O traçado proposto da Linha Violeta (via ML)

Alterações nas duas extremidades

Foi o jornal Público que noticiou estas alterações, citando a Câmara de Loures. A autarquia liderada por Ricardo Leão deu ainda nota de que o Parque de Material e Oficinas (PMO), infraestrutura essencial a qualquer linha de metro, terá de ter uma nova localização, não só devido ao encurtamento da linha mas também por outras questões. O PMO estava previsto para o Infantado, depois da estação da Quinta de São Roque. Mas, de acordo com o estudo de impacto ambiental, esta localização obrigaria ao corte de várias árvores e inviabilizaria um negócio de enoturismo de uma quinta situada nas imediações.

As alterações previstas, numa apresentação do Metro de Lisboa (Maio 2023)

O PMO vai passar, então, para a outra extremidade da linha, junto às estações Planalto da Caldeira e Hospital Beatriz Ângelo. Segundo a Câmara de Loures, citada pelo jornal Público, “o Metro de Lisboa esteve a avaliar, durante os últimos meses, as questões técnicas e o impacto nos recursos naturais para a nova localização do PMO, tendo chegado à conclusão pela localização do Planalto da Caldeira”. Esta localização tinha levantado preocupações ambientais, como referiu, Nuno Dias (PS), Vereador do Urbanismo de Loures, na reunião de Câmara de 19 de Julho.

Em resposta a Tiago Matias, vereador comunista, sobre se o PMO no Planalto da Caldeira não iria “comprometer o único espaço verde que aquele território tem” e para o qual está previsto um parque urbano, Nuno Dias admitiu dificuldades em encontrar um local para a infraestrutura que ocupará quatro hectares. “É um equipamento grande, pesado, e a sua localização precisa de ser afinada, até para não pôr em causa o parque verde”, reconheceu. O autarca socialista disse, nessa reunião, estar a trabalhar com o Metro para encontrar “o local mais adequado, para que não contribua para o desaparecimento daquela mancha verde”; agora, segundo o Público, a solução já terá sido encontrada e comunicada aos proprietários do terreno em causa e às juntas de freguesia.

A extremidade da Linha Violeta no lado do Infantado (via ML)
A extremidade da Linha Violeta no lado do Hospital Beatriz Ângelo (via ML)

Também nesta extremidade haverá alterações de traçado. A última estação, Hospital Beatriz Ângelo, vai ficar mais próxima do edifício do Hospital “de modo a facilitar o acesso e prestar um melhor acesso aos utentes que se deslocam a esta unidade hospitalar”, informa o município de Loures, que disse que o traçado apresentado “previa que a estação ficasse a uma distância considerável dos acessos ao edifício hospitalar”. Por outro lado, a penúltima estação, Planalto da Caldeira, deverá ser relocalizada para uma zona anexa ao parque de estacionamento do Centro Comercial Continente de Loures, uma vez que a localização que estava em cima da mesa fica inviabilizada devido à construção de um grande centro logístico, o VGP Park Loures. “Estando a localização da estação do Planalto da Caldeira prejudicada pela intervenção em fase de conclusão do VGP Park Loures, foi apresentado ao Metro de Lisboa uma proposta de deslocalização da estação para o piso de estacionamento do Centro Comercial Continente, adjacente ao mesmo”, disse a Câmara de Loures ao Público.

Fotografia LPP

Preferem carros ao Metro

Mas regressemos ao Infantado, onde está a avançar a maior alteração ao projecto original, com a eliminação de duas estações e de um quilómetro de rede devido à contestação popular. Alguns moradores da Urbanização do Infantado lançaram uma petição online para mostrar oposição ao traçado proposto, reunindo mais de 790 assinaturas. Escreveram que “esta Urbanização caracteriza-se por uma forte densidade populacional, estando ainda em expansão, verificando-se actualmente uma clara falta de lugares de estacionamento e forte congestionamento automóvel nas horas de ponta. “O actual projecto implica uma significativa redução de lugares de estacionamento (a sua passagem pelo separador de vias implica a eliminação dos estacionamentos adjacentes) e redução de vias de circulação com estrangulamento do trânsito apenas numa via – onde agora há duas”, pode ler-se no texto.

Petição contra o traçado da Linha Violeta no Infantado (via Petição Pública)

Os peticionários estavam também preocupados com a interrupção do trânsito rodoviário nas rotundas para a passagem do metro e com um “previsível aumento de circulação local” devido à procura que a linha metro traria para a zona. “Importante ainda mencionar a excessiva proximidade do traçado do metro aos prédios habitacionais, bem como a uma escola, com os conhecidos inconvenientes em matéria de segurança, poluição sonora e vibração. Não menos importante, este projecto implica ainda a destruição das palmeiras de vassoura, icónicas desta Urbanização, bem como de várias zonas verdes, já de si escassas.”

Em Abril, ao jornal Expresso, a autarquia de Loures tinha mostrado solidariedade com a petição e com a contestação que foi ouvindo em sessões de apresentação do projecto por si promovidas. No caso do Infantado, “fizemos uma reunião pública e detetámos que a população não queria que o metro passasse dentro da urbanização do Infantado. Fizemos depois um inquérito com cerca de três mil respostas e 70% daquela população não queria”, justificou Ricardo Leão, Presidente da Câmara de Loures. “Ficámos surpreendidos que o executivo anterior não tenha ouvido a população previamente. Compete-nos ir ao encontro daquilo que é a vontade da grande maioria da população”, adicionou ainda ao Expresso. Ricardo Leão, do PS, só tomou a presidência do município de Loures no final de Setembro/início de Outubro de 2021, tendo o protocolo para o desenvolvimento da Linha Violeta sido assinado dois meses antes pela autarquia liderada por Bernardino Soares, da CDU.

O traçado da Linha Violeta no Infantado já tinha sido contestado pela Junta de Freguesia de Loures, liderada por António Pombinho (CDU), que sugeria um traçado alternativo por entender que o proposto “atravessa o interior da urbanização, no meio de edifícios habitacionais, com redução das vias de circulação rodoviária e dos lugares de estacionamento, já actualmente escassos para a procura existente”, reduzindo a qualidade de vida dos habitantes.

A densidade populacional do concelho de Loures; assinalada a zona das estações do Infantado e da Quinta de São Roque, entretanto cancelada (via CML)

Uma petição contrária à supra referida começou a circular em Abril mas não conseguiu uma adesão relevante. Nela é defendido que “as linhas de metro devem chegar a zonas residenciais como a nossa, e não servir apenas como transporte para o centro comercial”, acrescentando-se que “a Urbanização do Infantado esteve sempre no plano, a pedido dos seus próprios moradores que queriam melhores alternativas de transporte para o seu dia-a-dia”. Os apenas 23 peticionários acreditam que a Linha Violeta “é a única forma de combater os problemas de congestionamento, estacionamento e segurança rodoviária na Urbanização do Infantado”.

Fotografia LPP

O projecto, segundo apresentado em Janeiro deste ano, previa junto à estação Quinta de São Roque a criação de um novo parque de estacionamento automóvel com 82 lugares, bem como a eliminação de um troço de ciclovia na Avenida das Descobertas, actualmente desenvolvimento numa zona de estacionamento, para permitir a inserção de mais lugares (os lugares que hoje existem em paralelo passariam a ser em espinha, e a circulação de bicicletas passaria a ser feita junto com a de peões no passeio já estreito).

Além disso, ao longo de toda a Avenida das Descobertas, a Linha Violeta passaria pelo separador central da avenida, onde existe um alinhamento de palmeiras, que teriam de ser removidas; no entanto, esta arborização não oferece qualquer sombra às áreas pedonais, onde existem outras árvores que seria mantidas (e que poderiam ser reforçadas). Além do mais, a avenida passaria a ter uma via por sentido em quase toda a sua extensão (tem duas actualmente e seriam mantidas as duas apenas em casos pontuais) e manteria a actual expressiva oferta de estacionamento. Apenas seria eliminado o estacionamento informal que é feito no meio da avenida e que seria compensado com o novo parque já referido, por exemplo. Também no LoureShopping poderia ser encontrada uma solução para o estacionamento nocturno de residentes, à semelhança do que se pretende fazer em Lisboa.

Esperança para o futuro?

No início deste ano, o plano da Linha Violeta foi colocado em consulta pública através da plataforma governamental Participa.pt, e qualquer pessoa pôde enviar contributos. Ao mesmo tempo, a Câmara de Loures promoveu sessões locais de apresentação do projecto e lançou um formulário próprio para a população participar directamente junto da autarquia.

O início da construção da Linha Violeta está previsto para o primeiro trimestre de 2024, terminando no segundo semestre de 2026, de modo a poder usufruir do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). O investimento previsto era de 250 milhões de euros, mas já subiu para 390 milhões. O procedimento para a contratação, por concurso público, da empreitada e do material circulante, que deverá ser dividido em três lotes, era para ter sido lançado ainda no primeiro semestre deste ano (que terminou em Junho); ao jornal Público, o Ministério do Ambiente e Acção Climática, de Duarte Cordeiro, disse que o projecto está “em fase de conclusão” e que “estão a ser trabalhados os últimos detalhes relacionados com soluções de projecto, as estimativas orçamentais e o seu financiamento”, devendo o tal concurso público – que será de concepção e construção – ser lançado agora em Setembro.

Com a alterações em marcha, a Linha Violeta terá 12 km (em vez de 13 km), com troços subterrâneos, outros em trincheira e a maioria à superfície, e ainda 17 estações (em vez de 19); o projecto irá impulsionar, além de uma nova mobilidade no concelho de Odivelas e sobretudo no de Loures, vários projectos de reordenamento urbano e viário, com melhorias do espaço pedonal e a criação de ciclovias, como demos a conhecer aqui.

Imagem aérea da Urbanização do Infantado, onde chegaria a Linha Violeta (via Google Earth)

O Governo e o Metro de Lisboa têm prazos cada vez mais apertados para a concretização da Linha Violeta. É certo que uma linha de metro ligeiro, maioritariamente à superfície, é de mais rápida execução que uma linha subterrânea de metro pesado, mas a criação da Linha Circular tem conhecido atrasos significativos. A Linha Violeta terá de ficar mesmo pronta até Dezembro de 2026, sob risco de perder o financiamento do PRR. Neste correr atrás do relógio e com os ajustes feitos ao traçado original, o Metro poderá, no entanto, poupar algum dinheiro, seja perante um cenário de aumento de custo da obra, seja num cenário de atraso e perda de financiamento. Isto é: sendo o projecto tal como foi apresentado de 390 milhões, este custo poderá manter-se com a concretização de menos um quilómetro e de menos duas estações.

Rascunho da proposta de prolongamento à Vialonga (via Nova Geração)

Por outro lado, o prolongamento da Linha Violeta para o Infantado poderá acontecer numa segunda fase, com outro instrumento de financiamento. Ou seja, o plano agora previsto fica na gaveta para um eventual futuro. Esse futuro poderá passar por um prolongamento da Linha Violeta até Vialonga, já no concelho de Vila Franca de Xira. Esta proposta foi apresentada através de uma moção pela coligação Nova Geração, liderada pelo PSD, na Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira, a 27 de Abril. Os sociais democratas entendem que a Linha Violeta deve contemplar “uma ligação ao concelho de Vila Franca de Xira, através da Freguesia de Vialonga, melhorando por essa via as condições de mobilidade do nosso concelho”, até porque “a estação terminal que é projectada para a Linha Violeta dista, em linha recta, aproximadamente seis quilómetros do lugar do Quintanilho, já na Freguesia de Vialonga, e junto à qual se situa o MARL, um importantíssimo pólo económico para os dois concelhos”.

“Note-se também que essa mesma extensão, caso se efetuasse até ao Cabo de Vialonga, de forma paralela à Variante, implicaria apenas a extensão do projecto original da Linha Violeta em nove quilómetros, permitindo servir a totalidade deste aglomerado urbano, naquela que, recorde-se, é a única freguesia do nosso concelho que não tem acesso direto ao transporte ferroviário”, referia a coligação Nova Geração, propondo que a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira fizesse “os esforços necessários junto das entidades competentes” para a integração de Vialonga no traçado do projecto.

A moção do PSD acabou aprovada por maioria, com uma abstenção da deputada independente Diana Neves. Teve 19 votos a favor do PS, oito da CDU, quatro da Nova Geração/PSD, dois do Chega, dois do BE, um do PAN e um do CDS.

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