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Lisboa. Vice-Presidente apresenta plano “dinâmico” de ciclovias

O número dois de Moedas anunciou 28 quilómetros de ciclovias segregadas e a implementação de Zonas 30+bici em 13 bairros da cidade. “A nossa expectativa é que estas ciclovias possam estar concluídas no final do mandato”, ou seja, em 2025.

Ciclovia provisória implementada durante a Semana Europeia da Mobilidade entre os Restauradores e a Rua da Prata (fotografia LPP)

Filipe Anacoreta Correia, Vice-Presidente da Câmara de Lisboa, antecipou-se à discussão prevista sobre a remoção da ciclovia na Avenida de Berna, na reunião pública desta quarta-feira, 25 de Outubro, e apresentou, nessa mesma reunião, um plano “dinâmico” para alargar rede ciclável, completar algumas ligações em falta, criar mais bairros 30+bici e expandir a rede GIRA. “Iremos reforçar em muito a rede ciclável e a presença da GIRA na cidade de Lisboa”, garantiu o número dois de Moedas aos vereadores das várias forças políticas.

“O nosso objectivo não é fazer disto [deste plano] uma promessa. Não tem sido essa a nossa metodologia. Nós comprometemo-nos com o trabalho e queremos avaliá-lo no final do mandato”, disse Anacoreta Correia. Procurando uma política “não com promessas e palavras, mas com concretizações”, o responsável adiantou ainda assim uma expectativa temporal – ainda que apertada – para o plano agora divulgado: “A nossa expectativa é que estas ciclovias possam estar concluídas no final do mandato”, ou seja, em 2025.

De acordo com a estratégia apresentada para a mobilidade ciclável, a Câmara de Lisboa está a trabalhar em quatro grandes eixos:

  • alargar a rede existente, o que significa terminar a auditoria à rede actual e construir, pelo menos, construir 19 novos troços – ou seja, adicionar 17 quilómetros à rede. Nesta lista está, por exemplo, a nova configuração da ciclovia da Avenida de Berna;
  • melhorar as ligações cicláveis a escolas, com 23 intervenções de infraestrutura ciclável que vão abranger 40 estabelecimentos de ensino da cidade. Estas intervenções enquadram-se no programa BICI, que a cidade de Lisboa ganhou, e perfazem um total de 11,4 quilómetros – uma parte serão troços segregados (os tais 11,4 quilómetros), a outra parte serão canais partilhados 30+bici;
  • criar novas Zonas 30+Bici em 13 bairros residenciais da cidade, sendo que o primeiro será apresentado em Janeiro de 2024. Estes bairros, onde a velocidade máxima de circulação será reduzida para 30 km/h, serão implementadas medidas de acalmia e pintadas linhas verde no asfalto, assinalando a partilha do canal por bicicletas, carros e outros veículos. Estas novas Zonas 30+Bici permitirão adicionar 58 quilómetros de infraestrutura ciclável à rede;
  • expandir a rede GIRA com 36 novas estações, permitindo uma cobertura global da cidade (em todas as freguesias até 2025/26) e reforçar a rede com novas bicicletas. Até ao final de 2023, estão previstas 900 bicicletas – 500 novas e 400 electrificadas.
Apresentação via CML

23 quilómetros segregados, 58 partilhados

Entre os 19 novos troços de ciclovia apresentados por Anacoreta Correia, estão oito com projecto concluído, oito com projecto em curso e três em estudo. Na lista, consta a ponte ciclopedonal da Avenida Almirante Gago Coutinho, cuja obra está prestes a iniciar, a ciclovia da Avenida Álvaro Pais, que está em concurso pela EMEL para poder ser executada, a polémica alteração na Avenida de Berna, a ciclovia na Avenida Egas Moniz, que está contratada desde o final de 2021, a melhoria da Ciclovia Ribeirinha, cujo projecto está em elaboração, a conclusão do Parque Urbano do Vale da Montanha, que vai permitir ter uma pista entre a Gago Coutinho e a Bela Vista/Chelas, ou o troço que está integrado na requalificação em curso da Praça Marechal Humberto Delgado, em Sete Rios. Na lista apresentada, estão também os projectos de que já tínhamos dado conta no LPP, no passado mês de Maio.

Apresentação via CML

Anacoreta Correia admitiu imperfeições na lista que mostrou na reunião de Câmara, dizendo que pode estar incompleta, uma vez que nem todas as ciclovias da cidade são feitas pelo departamento de Mobilidade do município ou pela EMEL. “Há projectos que estão nos Espaços Verdes ou no Urbanismo e que acrescem a este montante”, como é o caso da Praça de São Sebastião da Pedreira. “Estamos a trabalhar intensamente na identificação destes projectos”, indicou o Vice-Presidente da autarquia, acrescentando que, nesse âmbito, tem “vindo a trabalhar com Juntas de Freguesia e de associações de moradores”.

Em relação a Zonas 30+Bici, a Câmara de Lisboa prevê intervir nos seguintes 13 bairros: Madre de Deus, Alto do Parque, Restelo (Poente), Santa Cruz de Benfica (Este), Rego, Calçada dos Mestres, Campo de Ourique, Alvalade, São Sebastião da Pedreira, Actores, Condado, Encarnação e Parque das Nações (Sul). Em alguns destes bairros, como Campo de Ourique, Alvalade ou Rego, já existe infraestrutura 30+bici e medidas de acalmia, mas o objectivo é intervir em mais arruamentos e concluir os projectos existentes.

Apresentação via CML

Contas feitas, a autarquia lisboeta conta adicionar 86 quilómetros à rede ciclável da cidade, o que significa um aumento de cerca de 50% (a rede actual tem, desde o início do actual mandato, em 2021, pouco mais que 150 quilómetros). Desses 86 quilómetros, 28 serão ciclovias dedicadas, separadas do restante tráfego; 58 quilómetros serão as referidas Zonas 30+bici.

Apresentação via CML

Recorde-se que a primeira vez que a Câmara de Lisboa anunciou uma rede ciclável foi em 2016, com o então Presidente, Fernando Medina, a prometer 200 quilómetros até 2018. Em 2020, no contexto da pandemia e com essa meta ainda longe de ser cumprida, Medina revelou um plano de ciclovias pop-up, de mais rápida execução, prometendo concluir a rede ciclável anteriormente anunciada. De 2016 até agora houve alterações ao que se ia fazer, mas no essencial o que estava previsto manteve-se – o plano de expansão de ciclovias pode ser consultado neste mapa interactivo, disponível no site da autarquia.

Filipe Anacoreta Correia, que além de Vice-Presidente da Câmara de Lisboa também é responsável pelo pelouro da Mobilidade, falou ainda da expansão da rede GIRA, reiterando o que já se sabia: a intenção de levar a rede a todas as freguesias até 2025/26, expandindo o número de estações, e disponibilizar novas bicicletas. Até ao final deste ano, estão previstas 900 velocípedes eléctricos: 500 novos e 400 electrificados. Destes 900, já estarão em circulação pela cidade 274, de acordo com dados revelados agora pelo autarca.

O autarca comentou que a rede actual “não foi precedida de nenhum plano ou apresentação coerente, nem sujeita a discussão pública” e “foi sendo objecto de vários projectos que foram realizados em concreto e que no seu conjunto formam a rede que temos na cidade de Lisboa”. Sobre a auditoria em curso, em que se pretende avaliar o que foi feito para eventualmente se fazer melhor, Anacoreta Correia adiantou que esse trabalho – desenvolvido pela equipa da consultora dinamarquesa Copenhagenize – “está em fase de conclusão”.

“Não vale a pena falar em destruição da ciclovia, não é o que se passa”

“Recebemos um relatório intercalar” e, “assim que esse relatório estiver terminado, naturalmente que o disponibilizaremos a todas as forças políticas e que poderemos, então, dialogar com essa auditoria”, explicou. “Este é um trabalho dinâmico. Já temos algumas preocupações sinalizadas e não é por acaso que estamos neste momento a apresentar este projecto de expansão da rede.” Mas a apresentação de Anacoreta Correia, numa reunião pública de Câmara, surge também num momento de polémica, devido à remoção da actual ciclovia da Avenida de Berna para reduzi-la a um quarteirão numa primeira fase (e a dois numa segunda fase) e para repor 70 lugares de estacionamento tarifados.

Pedro Anastácio, vereador socialista, criticou o executivo de Moedas por fazer essa alteração na Avenida de Berna à pressa. “O Senhor Presidente [Carlos Moedas] disse-nos, na última reunião privada, de que a alteração desta ciclovia era uma promessa da Junta de Freguesia das Avenidas Novas que a Câmara estava a cumprir. Tenho alguma preocupação de que a Câmara seja um mero núncio das vontades das juntas de freguesia”, disse, questionando Anacoreta Correia e Moedas sobre a auditoria “da qual nada se conhece ainda”. Segundo o PS, havia uma promessa de que “antes de qualquer alteração à rede ciclável iria ser partilhada a auditoria. E até hoje nada. Traga à Câmara essa auditoria, partilhe-a connosco. Esse é mesmo o melhor caminho: partilhar para depois propor uma nova solução”, pediu Anastácio.

O vereador socialista acrescentou que “o que se deveria fazer” na Avenida de Berna “era melhorar a solução que lá existe, indo ao encontro do que as pessoas pedem: construir melhor espaço público, tornar a ciclovia mais segura, melhorar a circulação para peões e reduzir a velocidade naquela avenida. Deveriam ser estes os objectivos, esta preocupação”. Pedro Anastácio lembrou ainda que “existe uma petição para a remoção [da ciclovia], mas existe uma petição com mais assinaturas para a sua manutenção e melhoria”. Sobre o plano apresentado por Anacoreta Correia, o socialista agradeceu a disponibilização de informação, indo ao encontro de um pedido feito pelo partido numa reunião anterior, mas mostrou alguma preocupação: “o orçamento para a mobilidade suave desceu 30% este ano, de 12 milhões para 9 milhões, e mesmo ainda assim tem uma execução absoluta inferior ao ano anterior”.

Em resposta, Filipe Anacoreta Correia desvalorizou as petições por o tema da rede ciclável ser “um debate que tem vários anos e que sempre foi muito vivo na cidade”, com petições a favor e a contra, “com grande participação de cidadãos”. O Vice-Presidente da autarquia disse que “não vale a pena falar em destruição da ciclovia, não é o que se passa”, explicando que “aquilo que fizemos na Câmara foi uma solução de compromisso”. “A retirada da ciclovia não está pensada, nem esta Câmara propôs essa retirada. O que se fez foi repensar a ciclovia para que ela passe a ser bidireccional. Podemos verificar que essa bidireccionalidade já era muitas vezes praticada, por razoes de conveniência, pelos ciclistas”, adicionou. “Reconhecemos que é uma ciclovia importante e que está sustentada também no interior do bairro que acompanha a Avenida de Berna”, referiu ainda, explicando que esta alteração foi também uma promessa eleitoral do actual Presidente da Junta de Freguesia das Avenidas Novas.

Por fim, Anacoreta Correia remeteu uma avaliação do investimento do município na mobilidade ciclável para o final do mandato. E deixou um alerta: “Há uma tentação de uma instrumentalização partidária como se fossem uns, donos desta agenda [da bicicleta], contra os outros, que querem mal a esta agenda. Acho que isso não tem favorecido a implementação destas medidas. Não podemos implementar na cidade soluções contra ela. Temos de encontrar soluções de compromisso e de diálogo e que, no final do dia, resultem num crescimento das possibilidades existentes em matéria ciclável.”